A teologia cristã para uma ecologia à favor da vida.

Publicado: 23/12/2008 em Espiritualidade
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O termo ecologia utilizado pela primeira vez pelo biólogo alemão Ernest Haeckel (1834-1919), deriva do grego “oikos” e “logos”. Em uma de suas várias definições, “ecologia é o estudo da interdependência e da interação entre os organismos vivos e seu meio ambiente visando entender suas condições de existência”. Segundo Frei Beto não se trata apenas de conhecer a natureza, mas, sobretudo de cuidar para que a vida seja preservada e sugere que o termo mais adequado fosse “ecobionomia”, pois assim como “economia” é a obrigação de cuidar da casa, ecobionomia seria relacionado ao cuidado da vida. Na mesma linha, o Dr. Ágabo Borges de Sousa afirma que o tema tem sido visto por alguns de maneira muito simplória. “Há uma compreensão de que o meio ambiente deve ser preservado porque é criação de Deus. Obviamente, esta afirmação é um elemento de grande importância teológica, mas há algo mais. Há ainda o envolvimento de Deus nesta e com esta criação que envolve também o ser humano como parte dela”. Tomando por base o conceito da ação ecológica como atitude alicerçada por pressupostos teológicos em favor da preservação da vida, encontramo-nos atualmente com pelo menos duas questões emergentes que necessitam de uma tomada de posição pela Igreja Cristã: o ser humano como membro do meio ambiente e a bioética.

Na primeira questão, quando o homem olha para o meio ambiente com a preocupação ecológica só enxerga os seus próprios interesses. Olha para a natureza não como sistema onde acontece a vida, mas como “recursos” à sua disposição. Ele sabe que deve preservar os “recursos naturais”, porque são preciosos. A natureza para ele é um grande cofre, abarrotado de riquezas renováveis que deve ser cuidadosamente preservado. Daí a necessidade de autoridades ambientais atuantes e uma boa legislação que preserve o meio ambiente. Este nível superficial de consciência ecológica tem importância porque faz com que os seres humanos questionem seu comportamento econômico e comecem a perceber mais claramente que a ética, afinal, dá bons resultados, deixando a postura mais primitiva de mera pilhagem. Porém, esquece-se que “em situação de miséria não há equilíbrio ecológico possível”, como sentenciou o Prof. Paulo Nogueira Neto na conferência “O Meio Ambiente na Ótica da Ciência e da Religião”. A miséria na África, na Ásia e na América Latina, isso não interessa! O bicho-homem e o bicho-mulher passando fome não é problema nosso! Segundo as escrituras, o homem é húmus, é adamah e ao mesmo tempo é distinto da criação, sendo mais semelhante a Deus do que semelhante a ela (Gn 1:26-27, 2:7, 2:15, Ec 12:7) e tudo é feito em função dele, mas a moderna ecologia propõe uma inversão deste princípio bíblico gerando uma verdadeira ecolatria, denuncia o Pr.Isaltino Gomes.

Quanto à segunda questão, em 1971 a palavra bioética foi usada pela primeira vez por Van Renseselar Potter e André Hellegers. No inicio, a bioética teve uma forte tendência para ver a vida em relação a uma ética ecológica e ambiental. Aos poucos, porém, houve uma “medicalização” e o campo da bioética hoje em dia inclui estudos e reflexões que vão desde o inicio da vida (inseminação artificial, clonagem, uso das células-tronco, aborto) até o fim da vida (quando acontece a morte, o que é morrer com dignidade, eutanásia, etc.). Dito isto, o Pe. Luís Kirchner chama a atenção para a questão central do tema: Quando começa a vida humana? Na discussão acalorada se o embrião tem alma ou não; se tem status de ser humano ou não, alguns chegam a comparar a situação vegetativa de pessoas em estado de morte-cerebral com fetos anencefalicos para justificar abortos ou utilização destes órgãos em transplantes. Como lembra J. Lejeune, “se a saúde da mãe está ameaçada, se mata a criança; se a saúde da criança está ameaçada, se mata a criança; se a saúde pública está ameaçada, se mata a criança”. É preciso lembrar que o aborto não cura o paciente, no caso a criança, e nem resolve o problema, mas simplesmente mata o paciente. O conceito de ecologia traduzido por ecobionomia é novamente posto de lado e a teologia cristã surge no campo bioético como o “incômodo estandarte retrógrado” contrário à redução da vida a um “recurso genético”. Ignora-se que questões de vida e morte são objetos de estudo da teologia, são objetos da fé.

Portanto, na primeira questão trata-se mais de uma espécie de egocentrismo do que um “Antropocentrismo Ecológico-Social” (Gn 1:28, 9:2), pois não se deseja uma ecobionomia para todos e sim à economia de recursos naturais para somente para os seus, desprezando a totalidade da vida humana como excelência da criação. Boff afirma que “a mesma lógica que explora as classes e subjuga nações, depreda os ecossistemas e extenua o planeta (…) que como seus filhos e filhas empobrecidos, precisa de libertação (…) Segundo esta teologia a justiça social se transforma em injustiça ecológica porque atinge a pessoa humana (…)”. Na questão da bioética, mais uma vez, ignora-se a vida em favor do egocentrismo, onde privilegia-se a condição dos seus, os que existem em pretensa e anti-bíblica “plenitude”, em detrimento aos indefesos em estado de “potencial existência”. Mesmo sendo fora de contexto, impossível não recordar-se de Hc 1:2 – “Até quando, Senhor, clamarei eu e tu não me escutarás? Ou gritarei a ti: Violência! E não salvarás ?”

Concluindo assim, com as palavras de Leonardo Boff seguidas pelas palavras do Dr. Ágabo Borges de Sousa, “O teólogo só tem uma arma, que é a palavra escrita e falada (…) Quando penso em ecologia e teologia, penso em sotereologia, penso na teologia da redenção, na teologia da esperança, na escatologia, em antropologia teológica (…), cujo valor humanitário seja o existir harmônico dos seres criados nos ambientes igualmente criados por Deus, para que a bênção seja sempre vivida e cada geração possa crescer multiplicar e encher a terra.”.

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