Missiologia e Missão Integral

Publicado: 21/01/2009 em Sem categoria
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A missiologia é multi-disciplinar por natureza. Ela não somente se deixa informar por outras disciplinas, como também dialoga, interage e coopera com elas. Por esta razão, a missiologia é também chamada de “teologia cooperativa” [*] . Isto equivale dizer que trata-se de uma teologia prática de missão em diálogo, interação e cooperação com outras formas de estudar, compreender ou elucidar a vida, o ser humano, o mundo, a sociedade, a igreja e a espiritualidade, fazendo uso empático de ferramentas antropológico-culturais, sociológicas, linguísticas, e mesmo dos campos de comparação religiosa e da própria teologia sistemática. Da mesma forma como a teologia se faz em contexto, a missiologia só tem sentido se for essencialmente contextual, responsiva e conectada com a integralidade da existência do ser humano, quem e onde quer que seja que este se localise.

O mundo de hoje e do futuro próximo, por outro lado, é também multi-facetado em suas novas nuances propositivas, contornos, perguntas e necessidades. Segundo Howard Snyder, há oito aspectos que caracterizam o mundo imergente. Sáo eles: (1) A chegada da sociedade global “online”, i.e., Internet, etc; (2) Globalização econômica; (3) A revolução feminista; (4) O meio-ambiente em risco, i.e., aquecimento global, extinção de espécies, falta d’água potável, etc.; (5) A revolução da física quântica e genética, i.e., DNA, superstrings, etc.; (6) Realidade virtual e inteligência artificial; (7) Declínio cultural e econômico dos Estados Unidos; e (8) Cultura global versus choque global de civilizações. [**]

Estas facetas diversas demandam da missiologia respostas que se caracterizem por serem relevantes. Isto é, um mundo multi-facetado exige pensamento e ação missiológica multi-disciplinar. Daí a necessidade de se desenvolver umamissiologia integral, tanto no pensamento teológico quanto na prática ministerial individual e comunitária.

A missiologia, contudo, será incapaz de sugerir à Igreja respostas pertinentes em suas ações, vida e missão no mundo, a menos que aprenda e se permita fazer exegese. Exegese é freqüentemente entendida como sendo a observação ou estudo crítico das raízes, significados e implicações de um texto bíblico. Não me refiro, contudo, a aprender tão somente a fazer exegese do texto bíblico e seu contexto imediáto, mas também e especialmente do contexto enquanto realidade na qual a gente vive. Uma missiologia responsável procurará discernir e compreender tanto a mensagem bíblica primária ou original, como a situação contemporânea, fazendo uma “ponte hermenêutica”, como sugere Paul Hiebert.

Quando falamos de missão integral, portanto, estamos necessariamente apontando não somente para aquilo que a missiologia é em si mesma, mas também para um conceito que é ainda mais amplo e detalhado no que tange à prática missiológica cotidiana no mundo de hoje. Além disso, por missão integral não nos referimos apenas e tão somente às raízes históricas de um dado movimento histórico – que jamais deveria ser esquecido ou neglicenciado, já que oferece referenciais de curso e identidade a todos nós que o abraçamos –, mas também e especialmente ao estiramento prático, conceitual, estratégico e metodológico que a missiologia deve ganhar na vida de cada um individualmente e na comunidade de fé como um todo. Esta é a razão pela qual penso que a caminhada de missão integral deve estar sempre e necessariamente aberta em suas possibilidades, implicações e aplicações diárias, em todas as dimensões da nossa participação humana (missio hominum) e eclesial (missiones ecclesiarum) na Missio Dei, isto é, “a missão deDeus” [***] .

É preciso que se reconheça que, com raras excessões, a questão da multi-disciplinaridade tem sido um dos grandes flancos ou falhas dos teólogos evangelicais brasileiros atuais, preocupados que estão com suas próprias agendas pessoais, teológicas e relacionais, às vezes por demais maniqueístas e não menos desprovidas de tolerância com perspectivas diversas ou aparentemente contrárias.Esta problemática também se reflete na própria delimitação do que seja e de quem esteja comprometido com a caminhada de missão integral.

Dentre outras formas, este reflexo se mostra na concepção ou falsa impressão de que não pode haver missão integral fora do Movimento de Missão Integral. Aqueles que ousam mudar este paradígma, sofrem as consequências surgidas de amargas intolerâncias por parte daqueles que preferem taxar os que não se “enquadram”. Isto é, há muita gente íntegra, integral e integrada por aí que procura desenvolver uma missiologia e uma espiritualidade que seja calcada nas Escrituras e na realidade atual, que sabe fazer esta ponte e que desenvolve uma teologia e prática de missão holística, mas que eventualmente não reproduz a linguagem e os códigos próprios do Movimento de Missão Integral.



[*] Hans-Jürgen Findeis, “Missiology”, citando A. Exeler e T. Kramm.Dictionary of Mission. Müller, Karl, Theo Sundermeier, Stephen B. Bevans e Richard H. Bliese, editores. Maryknoll, New York, página 302, 1997.
[**] Snyder, Howard A. Global Trends 2006 –- Ten Major Trends: Reflections Twenty Years Later. Pp. 1, 2006, citando EarthCurrents: The Struggle for the World’s Soul. Nashville, TN: Abingdon Press, 1995.

[***] Van Engen, Charles. Mission on the Way: Issues in Mission Theology.Grand Rapids, MI: Baker Books, 1999.

Copyright © Maio 2007 Luís Wesley de Souza

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