Continuação….A pós-modernidade, um desafio à pregação do evangelho

Publicado: 23/05/2009 em Sem categoria
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5. A PÓS-MODERNIDADE PROPRIAMENTE DITA
Grenz declara que a pós-modernidade surgiu no dia 15.7.1972, às 15:32, com um projeto de arquitetura moderna, nos Estados Unidos . A pretensão é absurdamente ridícula, típica de norte-americano que presume que tudo de importante nasce em seu país. Nem se pode levar a sério tal afirmação, de tão tola que é. As raízes culturais da pós-modernidade remontam aos movimentos estudantis de 1968, na França. Na realidade, as mudanças culturais vêm mesmo é da velha Europa. O refluxo chegou até o Brasil, com a contestação estudantil ao regime militar instalado no País desde 1964. Mas os contextos eram diferentes. Aqui foram de ordem política. Lá, ordem cultural, de cansaço com a maneira antiga de ver o mundo. Também não se pode ignorar a força do movimento hippie, nos anos sessentas. Eles contribuíram grandemente para as mudanças culturais a seguir. Desprezando a tecnologia, buscando uma vida mais rural, pondo de lado o materialismo e a ganância da cultura capitalista, os hippies, com seu bordão de “paz e amor” foram o estopim do pós-modernismo. É necessária uma análise mais séria, menos passional, deste movimento. Seu envolvimento com drogas levou os conservadores a estigmatizarem-no como destrutivo. Para os evangélicos, na sua visão maniqueísta do homem, eram demoníacos. Para os simpatizantes, o movimento ainda é pintado com cores românticas. Desapaixonadamente, pode-se dizer que foi uma reação a um modo de vida mundano, grosseiramente materialista e dominado por estruturas que subjugam o homem e lhe põem um traje para envergar sem que ele possa questionar. Foi uma reação de jovens ao estilo de vida de seus pais.

A rigor, a pós-modernidade é uma reação à modernidade. O milênio por esta prometido não chegou. O crescimento econômico não beneficiou a maioria, mas aos que beneficiou, trouxe uma profunda crise existencial, por incrível que pareça. Mas é até bíblico. “Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: Soberba, fartura de pão, e próspera ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado” (Ez 16.49). A riqueza sem o lastro cristão traz a ganância, e o viver em função de bens traz a indiferença para com os necessitados. Surge a ociosidade, mãe de todos os vícios e irmã de muitas frustrações. Pobre não tem tempo de ter crise existencial. Tem que sobreviver.

Abastados têm tempo para frustração e tédio. E caem neles. Dinheiro não enche a alma de significado.

Os filhos do século das luzes, bafejados pela cultura iluminista, viram duas guerras mundiais, viram o massacre de seis milhões de judeus, viram nascer e puseram sua esperança no marxismo e descobriram, desapontados, que dele surgiu uma das mais cruéis ditaduras da história, viram um capitalismo desumano e muita hipocrisia religiosa. Viram Ruanda e Angola. Viram o massacre da Praça da Paz. A mudança histórica prometida não surgiu. O paraíso não chegou. A Náusea, de Sartre, ilustra bem o sentimento de revolta e indignação surgido em muitas mentes. O mecanicismo de Newton não se fez sentir na área social. As coisas não funcionaram tão ordeiramente, tão matematicamente, como se esperava. O homem moderno se sentiu desorientado. Poucas palavras podem se aplicar tão bem à sua situação como um trecho de uma música de Chico Buarque de Holanda: “eu nem sei pra onde eu vou, mas continuo indo”. Falando em música, John Lennon estava enganado: o sonho acabou. Nada deu certo. A pós-modernidade é uma reação contra as promessas não cumpridas. O mundo se tornou pior. Como bem disse o teólogo Metz, “a ciência não pode produzir um único gesto de amor”. A fé na tecnologia produziu indiferença e cinismo. O homem foi esquecido, o humano foi desprezado.

O mito do futuro melhor se esboroou. Ele era a base da modernidade. A pós-modernidade é uma reação contra ela. E começou a nascer não na construção de uma casa, como ingenuamente declara Grenz. Mas começou a nascer quando se viu a impossibilidade de se mudar o mundo. Marx achava que não se devia mais interpretar o mundo e sim transformá-lo. Os pós-modernistas descobriram que é impossível fazê-lo. Podem até não negar as teses de Marx, mas negam sua solução. Na realidade, o mundo, para eles, não tem solução. Por isso, Faus declarou muito bem que a pós-modernidade não se limita unicamente a suceder no tempo a modernidade, mas reage ( e de forma bem dura) contra ela. Por isso, é mais antimodernidade do que pósmodernidade .

Vimos que uma das conseqüências da modernidade foi a secularização. A modernidade colocou a técnica no lugar de Deus. Colocou suas esperanças na educação do ser humano. Chegou a confundir, muitas vezes, capacitação tecnológica com educação. O regime militar brasileiro, por exemplo, acabou com o curso clássico e com o ensino de Filosofia e Ciências Sociais e nos deu os cursos profissionalizantes. O Brasil necessitava, urgentemente, de tecnologia, para entrar numa fase de desenvolvimento. A utopia humana, afinal de contas, viria pela Ciência e pela técnica. Educar era capacitar tecnologicamente. A pós-modernidade modificou, mais uma vez, o cenário humano. Perdeu a utopia.

Perdeu os ideais. Sacralizou o fático (de fato) e renunciou a combater ou mudar as injustiças sociais. Bem o diz Gondim: “A maior denúncia que se faz aos filhos da pós-modernidade é que abandonaram o ideal e renderam-se ao consumismo” . A pós-modernidade assimilou as injustiças sociais, deu-as como irremediáveis.

Então, cada um na sua, cada um que aproveite o que puder. Só que, com este lema, o mundo se torna cada vez menos habitável, menos humano, e cada vez mais selvagem. Guardadas as proporções, pode-se dizer que a pós-modernidade é um neo-existencialismo, mas mais cínico que este. Duas frases de Sartre podem ilustrar bem a época em que vivemos, a época pós-moderna: “o inferno são os outros” e “o homem é uma bolha vazia no mar do nada”. Então, cada um na sua, cada um que se vire por si. A diferença é que, tomando carona numa idéia de Faus, no existencialismo, havia a preocupação com “a insustentável leveza do ser”, que Milan Kundera expressou bem no romance deste nome. Na pós-modernidade há a “insustentável leveza do real” (não a nossa moeda, mas o que é). O mundo é assim e sempre será assim. Para quê lutar? Vamos viver.


6. BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, SÍMBOLO DO PÓS-MODERNO
Lyon , em feliz abordagem, nos mostra o filme Blade Runner, o caçador de andróides como uma amostra do que seja a pós-modernidade. Na realidade, o filme é bem emblemático do movimento. Os andróides são seres quase-pessoas, produzidos pela bioengenharia. Vivem fora do mundo e são chamados de “replicantes”. Eles vêem à Terra para lutar contra a empresa que os criou. Sua queixa é que têm apenas quatro anos de vida e querem mais. Querem ser equiparados aos humanos, dos quais são réplicas perfeitas. O caçador de andróides é Deckard, cuja função é seguir suas pistas e eliminá-los. Os replicantes não são robôs. São um simulacro de gente. Eles têm uma vida rápida, curta e muito agitada. Os testes para determinar se são gente ou andróides são variados. A andróide pela qual Deckard se apaixona é Raquel. Ela apresenta uma foto da mãe, o que o leva a supor que é uma pessoa. Uma máquina que tem família. E Deckard, o herói do filme, é um humano solitário. São as contradições do mundo pós-moderno.

O cenário em que o filme se processa é uma cidade em ruínas. Tudo que era imponente agora está demolido. O cenário é de absoluta decadência. A tecnologia é de ponta, está em seu grau mais elevado, mas a vida é triste. Montes de lixo entulham as ruas. Há uma garoa cinzenta constante que quase torna o filme em preto e branco. As ruínas da cidade mostram colunas gregas, romanas, dragões chineses, pirâmides egípcias e cartazes de Coca-Cola. Toda a cultura humana se faz presente e toda ela está em ruína. O próprio tema musical do filme é melancólico.

Em que ele é um símbolo da pós-modernidade? A tecnologia se sobrepõe à humanidade. Os homens criaram máquinas que os substituem e que são suas inimigas. Os replicantes querem ser gente, mas a prova de sua vida é uma fotografia, claramente construída, forjada, artificial. A mensagem do filme é clara: o mundo científico é uma ilusão e o progresso humano está em ruínas. A cidade onde o filme acontece não é identificada. Pode ser qualquer uma, qualquer cidade populosa do mundo industrial. Afinal a vida é igual em todos os lugares, sem qualquer traço de pessoalidade. Há transporte a oitenta metros de altura do solo, mas o ambiente é de desintegração e caos. O filme mostra que a tecnologia não redimiu o mundo. Pelo contrário, arruinou-o. O herói se apaixona por uma máquina, semi-humana. Até o personagem principal está desorientado, é alguém iludido. As máquinas ocupam o lugar das pessoas e a cultura produzida em milênios está em ruínas. O mundo físico é caótico, mas o enredo também é.

7. CARACTERÍSTICAS DO PÓS-MODERNISMO QUE MAIS NOS AFETAM
Com esta visão de Blade Runner, podemos caminhar um pouco pela pós-modernidade. Alistemos, agora, algumas características do que é este movimento. Vejamos nelas as marcas de caráter que muitos dos adolescentes e jovens que recebemos nas igrejas trazem consigo. E como elas nos afetam, em nosso testemunho de Jesus Cristo.

1º) O colapso das crenças. Quer seja a fé, quer seja o crer na educação, quer seja o aceitar a cultura até então afirmada, há uma descrença em tudo que se afirmou até então. Não crêem que seja verdade que o estudo pode melhorar a vida das pessoas e o mundo. Há desinteresse pela herança passada. Tudo é visto como não funcional, como não resultável, não produtor de bons resultados. Um Ronaldinho, que mal consegue fazer uma sentença gramatical articulada, ganha muito mais que um cientista. E sem jogar futebol há muito tempo! É mesmo um fenômeno. Vive da mídia. Vale mesmo a pena estudar? Mas voltando à questão das crenças: não há um conjunto de valores. O que se faz é desmantelar as regras e as estruturas.

2º) A busca de novidades exóticas. Numa música espanhola se ilustra isso muito bem: “Cada noite um rolo novo. Ontem o ioga, o tarô, a meditação. Hoje o álcool e a droga. Amanhã a aeróbica e a reencarnação” (Cómo decirte, como cóntarte). No dia em que digitava esta parte, 8 de abril, na televisão se passava uma reportagem sobre o consumo de uma droga chamada ecstasy, em festas de jovens. Normalmente as novidades são contra o estabelecido, e as drogas, muito mais. Veja como a mídia cria mitos, cria conceitos, projeta sempre o que é contra os estabelecido. Um exemplo é a exaltação do Islã em uma novela recente, da Globo. Os evangélicos, enquanto isso, são ridicularizados. Esta atitude surge por causa dos dois itens seguintes.

3º) A descrença nas instituições. As instituições sociais falharam em seu propósito de prover um mundo melhor. Os governos, a família, a escola, todos eles falharam. O jovem não crê na declaração romântica do educador de que está formando mente e educando para o futuro. Não vê o professor encarar a profissão como um sacerdócio, mas como um ganha-pão. Não vê a escola como um lugar agradável nem crê no seu discurso de que estudando a pessoa pode ter oportunidades. Há milhares com diploma na mão e subempregados. Também não crê nas igrejas porque os escândalos são muitos. A igreja dos anos noventas não produz homens e mulheres santos, mas pessoas preocupadas com dinheiro. O vulto mais importante que a igreja evangélica dos anos sessentas legou à humanidade foi o pastor batista Martin Luther King Jr, Prêmio Nobel da Paz. A igreja evangélica dos anos oitentas apresentou ao mundo o bispo anglicano Desmond Tutu, que também recebeu o Prêmio Nobel da Paz. A igreja evangélica dos anos noventas é mais conhecida por Edir Macedo que por qualquer outro personagem. Este não ganhará nenhum Nobel. Para o homem pós-moderno, os governos não são honestos nem a classe política é íntegra. A família, via de regra, é um inferno na sua vida doméstica cotidiana. Isso se vê na legião de meninos de rua que fogem de casa e preferem um estilo de mendicância, superior ao que têm em casa. A autoridade nunca é bem vista. É sinônimo de opressão.

As pessoas desejam ser livres. É o desdobramento do existencialismo, como foi mostrado num filme dos anos sessentas, Cada um vive como quer. As pessoas são senhoras de suas vidas, sem convenções, sem compromissos e sem autoridade. E as igrejas evangélicas são, hoje, mais instituição do que comunhão. O aspecto institucional e uma maior importância à ordem e à lei do que à vida nos colocam em desvantagem. Os regulamentos e o “está errado” falam mais alto que a celebração da vida.

Falando em existencialismo, sua relação com a pós-modernidade pode ser descrita nem duas pichações em uma igreja, na França. O existencialista pichou assim: “Deus morreu. Viva Marx”. O pós-moderno pichou por baixo: “Marx também morreu. E eu estou gravemente enfermo”. Depois de termos visto “a morte de Deus” para o homem poder se afirmar (tese central do existencialismo), vemos agora a morte do homem. Cabem bem, aqui, as palavras de Veith: “O modernismo tinha assumido o projeto da morte de Deus. David Levin mostra como o pós-modernismo dá o passo seguinte. Conservando a idéia de que Deus está morto, o pós-modernismo assume como projeto próprio a morte do eu”.

4º) A necessidade de escandalizar. É uma maneira de agredir as pessoas e de se defender delas. Escandalizam com a conduta, com a recusa às regras, na indumentária e no visual. A própria maneira de se vestir mostra desleixo e até falta de asseio. Gasta-se muito dinheiro para se comprar uma roupa rasgada. Vestir-se mal e como mendigo é sinal de estar na moda. O pós-moderno rejeita padrões. Costumo dizer que adolescente não se veste, apenas se cobre. É aquela bermuda que não se sabe se é uma calça comprida do irmão menor, porque ficou no meio da canela, ou se é uma bermuda do irmão maior porque ficou pouco acima do tornozelo. Todo mundo é igual: o boné virado para trás, um tênis encardido no pé e uma blusa de frio amarrada na cintura. Isto porque querem ser diferentes. Copiam-se uns ao outros na sua diferenciação. Um piercing dá um toque a mais. Julgam-se diferentes, mas são clones uns dos outros.

5º) Um estilo individualista, hedonista e narcisista. Os jovens de hoje são individualistas, embora vivendo em “tribos”. Vivem sua existência. Não se espere deles patriotismo ou rasgos de idealismo. São hedonistas, vivendo em função do prazer, não necessariamente sexual, mas a busca do que lhes é agradável. São narcisistas, no sentido de olharem mais para si que para o mundo. Isto não é uma prerrogativa exclusiva deles, mas de toda a cultura pós-moderna. O social e outro são irrelevantes. O que vale é o próprio indivíduo.

6º) A falta de uma cosmovisão. O pós-moderno não tem uma cosmovisão nem mesmo posturas coerentes. É a pessoa que nega a existência de Deus, mas que crê em energia vinda de um cristal. Que nega a historicidade de Jesus, mas acredita em duendes. Agem assim porque as cosmovisões são explicações totalizantes do mundo, trazem respostas cabais e últimas. “Nenhuma certeza pode ser imposta a ninguém”, diz o pós-moderno. Recusando uma cosmovisão, uma visão integrada, as pessoas fazem uma crença tipo picadinho. Tudo está bom, tudo está certo. Ao mesmo tempo, isto não faz diferença. Cada um faz sua crença e sua religião. O valor último ou padrão aferidor é a própria pessoa. Foi isto que o roqueiro brasileiro, Raul Seixas cantou: “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião sobre tudo, tudo”. As pessoas não têm mais uma visão determinada do mundo.

7º) A perda do sentido de história. Não existe uma história unificada, produto da visão cristã que impregnou o Ocidente e lhe deu direção. Existem acontecimentos isolados, histórias de pessoas que se cruzam entre si, sem nexo, sem ligação. Uma visão global da vida não existe. Existe uma visão fragmentária.

Pensa-se no hoje, no fato de agora. Perdeu-se a visão de um passado, um presente e um futuro integrados. O pós-moderno opta pelo efêmero, pelo modismo, pelo fragmentário, pelo descontínuo. Com isto, a vida não tem sentido histórico nem dimensão linear. É para ser vivida agora, numa dimensão pontilear.

8º) A substituição da ética pela estética. O dever cede lugar ao querer. As escolhas são privadas e não mais ligadas à sociedade. A capacidade de viver e de desfrutar o belo substituiu a responsabilidade. O negócio é experimentar sensações, cada vez mais fortes, cada vez mais dinâmicas. Nada de sentimento de culpa ou de valores. Viver é fazer o que me agrada. Em outras palavras: ninguém tem nada com a minha vida. Ninguém se prende afetivamente a alguém.

9º) A crise de pertença, ou seja, a necessidade de pertencer a alguma coisa, se tornou mais aguda, nesta situação. A maldição sobre Caim foi tirar-lhe a pertença. Ele seria sem raízes, geográficas ou sociais, um nômade, um errante, um peregrino, andante. O homem necessita pertencer a alguma coisa. É uma profunda carência existencial. Precisa pertencer a uma igreja, um clube, uma associação, etc. Como a crise de pertença surgiu logo vieram os relacionamentos “lights”, imediatistas, sem ligações profundas, manifestadas no sexo efêmero e casual. O instinto substitui o afeto. Cada semana, uma pessoa. Pertence-se a uma “tribo”, mas se refugia no anonimato de relações via Internet.

10º) A característica a seguir é a mais forte, em termos de nosso trabalho: a pluralidade ideológica e cultural. Nossa época é uma época de síntese. As pessoas querem ter posições, mas querem concordar com tudo. A pessoa tem uma cultura tecnológica, de informática avançada, mas crê em florais, astrologia e numerologia. Não tem convicções, mas conveniências. Seu credo é mais produto de ajustes de convivência do que de convicção pessoal. Pode-se ter grande zelo pela ecologia e desprezo pelo humano. As crenças e posturas são casuais e produto de circunstâncias. O evangelho pode ser verdade, mas é verdade para uma pessoa e não para outra. Há tantas verdades como pessoas.

Cada uma tem a sua, cada uma faz a sua. Dei um folheto evangelístico a uma pessoa, folheto que falava de Jesus. A pessoa me disse que não cria nessas coisas. No vidro de seu carro brilhava um adesivo: “Eu creio em duendes”. Mas o maior problema está hoje no pentecostalismo. Ele está minado pelo paganismo e ele invade nossas igrejas., com esta sua contaminação. Quero citar um pastor da Assembléia de Deus, sobre este ponto:

Na América Latina, as religiões pagãs populares vão se incorporando aos rituais pentecostais. Pede-se ao diabo para se manifestar, com o objetivo de exercer poderes exorcistas sobre ele, mapeiam-se as moradias demoníacas por causa da influência da cosmovisão pagã de que os poderes malignos tomam posse de lugares. Os objetos supersticiosos, como óleo ungido, rosas sagradas e a água do rio Jordão, passam a ter o mesmo valor no Cristianismo que na religiosidade popular pagã.

A linha entre paganismo e pentecostalismo, principalmente no baixo-pentecostalismo, tem sido apagada. Este é um dos mais sérios problemas para nós. Nossos crentes assistem aos programas da Universal, onde os fundamentos do protestantismo são negados. O sacerdócio universal de cada crente, a graça por causa do amor de Deus, o fato de que Deus não se deixa subornar, são negados nas suas práticas exóticas. Ao mesmo tempo há a idéia de que uma água benzida pela oração do pastor tem fluidos mágicos. Tudo isto entra na cabeça de nosso povo. Há uma paganização do movimento evangélico hoje. A crença tipo picadinho está muito forte nos segmentos mais baixos do movimento evangélico.

8. COMO PREGAR E EDUCAR UMA IGREJA NESTE CONTEXTO
É uma situação desvantajosa para o pregador, que sempre é um educador, geralmente produto de outra cultura. Muitas vezes ele mesmo vive em conflito por causa do choque cultural. Foi criado num estilo, mas já assimilou padrões de outro estilo. Como pregar numa sociedade pós-moderna?

1º) Lembrando que temos valores eternos, como cristãos, que somos. Há valores temporários, locais e mutáveis. Há valores inegociáveis. O pregador e o pastor necessitam ter uma cosmovisão cristã completa, saber de sua fé e de seus valores e vivê-los. Muitos pastores não têm uma visão global do mundo, e, o que pior, muitos não têm sequer uma visão global de sua fé, sabendo encaixar o mundo nela, analisando o mundo por ela. Sua fé é atomizada, de pequenos credos, sem uma visão holística do evangelho. Sem ver o evangelho como uma cosmovisão, uma explicação global do mundo. Isto é trágico para um pastor. Ele observa a vida cristã por um determinado dom, por uma visão de ministério, pelo modismo contemporâneo, de igreja com propósito ou outro qualquer. Sem uma visão global do evangelho fica difícil analisar o mundo.

2º) Nossas comunidades, sejam igrejas sejam congregações, não podem se fiar apenas na repressão. Devem ser comunidades calorosas, sadias e honestas. As pessoas devem ser ouvidas e levadas a sério. Devem ver seriedade no trato, rigor com respeito. O jovem continua necessitando de balizas, de norte. Busca um guia-líder confiável. O que leva jovens a se envolverem com seitas exóticas como Moon e alguns pastores que promovem a autolatria? É que esses líderes os aceitam e lhes servem de referencial. Nossas igrejas podem oferecer este ambiente ao jovem? Ela é agradável ou é um fardo? O pastor pode ser um referencial, no sentido de ser uma pessoa que sabe o quer e para onde vai? O estilo de vida do pastor é entusiasmante? Ou ele é um profissional de religião?

3º) Coerência é fundamental. A frase é do papa Paulo VI, mas nem por isso deve ser tida como inválida, muito pelo contrário: “Os jovens de hoje não querem mestres, querem testemunhas”. Querem pessoas que creiam nos valores que propagam. O pastor digno do nome é alguém que busca ser modelo. Há pastores que não amam as pessoas, mas o seu ministério, o seu trabalho, sua filosofia ministerial e, algumas vezes, o reino de Deus. Isto não é errado, mas se não ama gente terá grandes dificuldades em seu trabalho. Outros têm o ministério apenas como ganha-pão. Coisificam pessoas e pessoalizam idéias e conceitos. “Vem para o meio”, disse Jesus ao homem da mão mirrada. O educador e o líder cristão que se prezam colocam a pessoa no centro. Amamos nossos templos, nossos prédios, nossas instituições. Mas e as ovelhas? São apenas um detalhe aborrecedor e irritante? Conheço pastores intratáveis. Há líderes apaixonados por si e com comichão nos ouvidos e também na língua, desejos de ouvir novidades e espalhá-las. Mas não ligam para as pessoas. Elas apenas fazem parte do seu trabalho, do seu ministério. Isto é grave. As pessoas sabem quando são usadas e manipuladas e sabem quando são aceitas e amadas, mesmo que discordemos delas.

4º) Precisamos amar o que fazemos. Uma das questões mais atacadas pela pós-modernidade é exatamente a hipocrisia dos líderes, com um discurso e com outra prática. Gente tem valor, é preciosa, e lidar com gente pressupõe amá-las. Pastorear pressupõe amar o trabalho que se faz. Pode-se fazer algo mecanicamente em uma linha de montagem, sem amar as máquinas e os parafusos. Mas lidar com gente sem amá-las e sem amar o trabalhar com gente, é sinal de fracasso. O amor ao que se faz dá forças para superar as crises e capacidade para se atualizar. Digo que pastorado é uma atividade que só pode ser feita passionalmente. Deve ser feito com coração. As marcas ficarão na vida das pessoas que entrarem em contato conosco.

5o) A igreja precisa dar respostas relevantes para a vida real das pessoas. Não vou entrar em área de conteúdo teológico, mas que respostas nossas igrejas estão dando para a vida? Em um culto voltado para jovens, o pregador convidado falou por quase 50 minutos sobre dicotomia ou tricotomia. Segundo ele, este era um assunto palpitante, com o qual ele estava “muito preocupado”. E daí? Que diferença isto faria para os jovens? Pregamos o que gostamos ou o que as pessoas precisam ouvir? O púlpito está dando respostas sérias ou é um falatório sobre religião? Pregamos apenas assuntos ou pregamos uma pessoa, Jesus, que tem respostas para a vida das pessoas? Com que estamos preocupados? Com assuntos que nos dizem respeito ou com as necessidades dos ouvintes? De que se ocupa o púlpito? De Cristo ou de política denominacional. Para que o usamos? Para glorificar a Cristo ou para enviar recados aos outros?

6º) A fé precisa ser viva numa igreja. Parece banal, mas tem nexo no que quero dizer. A igreja deve expressar o caráter cristão nas suas relações e no seu ambiente. O pós-moderno necessita ver uma igreja batista como uma instituição séria, espiritual, coerente em sua fé. Ele está cansado de dicotomia entre conduta e fé. Farto de fingimentos. O jovem pós-moderno clama, no dizer de Faus, nos seguintes termos: “quem me vende um pouco de autenticidade? A espiritualidade continua fora do culto? Cantamos o corinho “esta igreja ama você” na hora de saudar o visitante. Mas, acabado o culto, temos interesse nele? Se trouxer um problema a igreja está mostrará que o ama? A fé e os relacionamentos aparecem apenas na hora do culto ou permeiam a vida das pessoas?

7o.) O púlpito precisa ser cristocêntrico. Cristo precisa voltar a ser o centro e o interesse da pregação. Valorizam-se dons, exalta-se o Espírito Santo, mas a segunda pessoa da trindade tem sido esquecida na sua própria Igreja. A IURD trocou a cruz pela pomba. Outro dia, pela tevê, dizia um pastor pentecostal: “Cristo é o canal para nos trazer o Espírito Santo”. Que mudança doutrinária! E João 14 a 16, que fazer deles? E a cruz, onde colocá-la? Um púlpito bíblico, exegético, com Cristo no centro, é uma necessidade insuperável da igreja. Preparando um ano de lições de EBD para minha Igreja, sobre Teologia Sistemática, entre na maior livraria evangélica de Campinas para adquirir livros sobre Cristologia. Queria alguns além dos que tenho. Não encontrei um, um sequer. Mas encontrei quarenta e dois, sim, quarenta e dois, sobre batalha espiritual, sobre demônios, quebra de maldições. Temos um contraste doloroso. A Igreja é de Cristo mas está fascinada por demônios. Temos um Cristo que salva, que perdoa, mas que é fraco e é incapaz de livrar a pessoa do poder de demônios. Só o sacerdote baixo-pentecostal pode fazê-lo. Cristo precisa voltar a ter a primazia em nossa ensino. Cristo precisa voltar ao primeiro lugar no púlpito. Chega de estrelismo humano e de exotismo doutrinário!

8º) A Igreja precisa de rumo. Mencionei anteriormente que o pós-moderno é pragmático e não idealista, que pensa localmente em vez de globalmente. Isto está acontecendo com as igrejas. A Igreja deixou de ser a comunhão dos santos e só se pensa em mega-igreja. Um amigo meu, a quem muito respeito, sentiu-se tocado por Deus para um trabalho na periferia de S. Paulo com bêbedos e macumbeiros. Em dois anos tinha convertidos para organizar uma igreja. Ele tem trabalho secular, não precisava de sustento pastoral e o seu grupo alugou um salão onde se reunia. Como bom batista, procurou uma igreja para ser a organizadora de sua congregação em igreja. Não queriam um centavo porque podiam se manter. Só queriam uma igreja que fosse a organizadora. Enviou cinco cartas a igrejas de amigos. Não obteve respostas. Aliás, uma respondeu: “Deus não nos deu a visão de organizar outras igrejas”.

Isto aconteceu. Não criei a história. A visão é local e não global. O espírito é pragmático: vamos gastar energias em organizar uma igreja na periferia? Devemos concentrar nossos esforços em ter uma igreja grande no nosso bairro de classe média. Dá mais status. A visão é ser uma mega-igreja. Neste afã, doutrinas e posições históricas são sacrificadas por métodos esquisitos e antibíblicos, desde que estes dêem certo. O que vale é o pragmatismo de ajuntar gente, de ter uma “igrejona”. A Igreja precisa de rumo. Ela não precisa de novos propósitos como alguns parecem interpretar. Jesus já deixou propósitos para sua Igreja. Basta ler Mateus 28.18-20 e Marcos 16.15. Que uma igreja deve ter rumo e delinear bem seu propósito ministerial, isto é indiscutível. Mas isto não é novo. É neotestamentário. Não criemos novos rumos nem nos desviemos dos traçados pelo Senhor da Igreja.

Talvez mais questões poderiam ser alistadas aqui. Mas creio que, mostradas as linhas da pós-modernidade, não será uma tarefa difícil pensar em como trabalhar cristãmente dentro das suas características. Mas, sem resvalar para a pieguice, a frase de nosso irmão do passado, Tiago, pode nos ajudar: “Ora, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não censura, e ser-lhe-á dada” (Tiago 1.5). Um pastor, um pregador, um educador cristão se preparam espiritualmente, diante de Deus, para cumprir sua tarefa.

Que o façamos, portanto.

À GUISA DE CONCLUSÃO – ALGUMAS QUESTÕES PARA PENSARMOS

1ª) Tenho a preocupação de vanguardear, de marcar a vida das pessoas, de deixar lembranças positivas, ou vejo meu ministério apenas pelo aspecto de cumprir uma missão?

2ª) Considero-me, como pastor, um produto acabado ou procuro entender meu tempo? De que forma o faço? Que evidência tenho para provar isso?

3ª) Que características do pós-modernismo estou a ver em minhas ovelhas, mais comumente? E na minha conduta?

4ª) Estou na pré-modernidade, com o peso da autoridade? Entrei e vivo na pós-modernidade, com o peso das evidências? Como reajo à contestação e como me situo para responder aos desafios pós-modernos?

5ª) O que está no centro de minha visão pastoral?

6ª) Qual a minha visão de Igreja e qual o uso do púlpito que faço?


BIBLIOGRAFIA SOBRE PÓS-MODERNIDADE

BUARQUE, Cristóvam et alli. Fé, Política e Cultura- Desafios Atuais. S. Paulo: Edições Paulinas, 1992
CAPRA. Fritjof. O Ponto de Mutação. S. Paulo: Cultrix Editora, 1988.
ECO, Umberto, A Ilha do Dia Anterior. 4ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record
FAUS, José Ignacio. Desafio da Pós-Modernidade. S. Paulo: Paulus, 1995
FORD, Kevin Graham. Jesus Para Uma Nova Geração. S. Paulo: Candeia, 1998
GALBRAITH, John Kenneth. Anatomia do Poder. S. Paulo: Pioneira Editora, 1988
GASTALDI, Ítalo. Educar e Evangelizar na Pós-Modernidade. S. Paulo: Editora Salesiana Dom Bosco, 1994
GONDIM, Ricardo. Fim de Milênio: Os Perigos e Desafios da Pós-Modernidade na Igreja. S. Paulo: Abba Press, 1996
GRENZ, Stanley. Pós-Modernismo. S. Paulo: Edições Vida Nova, 1997
KILPATRICK, Educação Para Uma Civilização em Mudança. 15ª ed. Rio de Janeiro: Edições Melhoramentos, 1978.
LYON, David. Pós-Modernidade. S. Paulo: Paulus, 1994
SANTOS, Jair Ferreira. O Que é Pós-Moderno. S. Paulo: Editora Brasiliense, 17ª ed. 1997

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