DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE PARA O NOVO CALVINISMO: A questão da verdade

Publicado: 26/10/2010 em Sem categoria

por Leandro Antonio de Lima

O grande desafio para o calvinismo, bem como para todo o cristianismo, parece ser o de recuperar os fundamentos. Por meio de seu embate com a modernidade, do qual o calvinismo saiu em frangalhos algumas vezes, o calvinismo usou argumentos para responder à crítica sobre a existência de Deus ou dos milagres e, acima de tudo, para defender a Bíblia, mas agora essa pode não ser a preocupação central. Na pós-modernidade desconstrucionista, diz-se que defender a existência de uma verdade objetiva soa a fascismo e apregoar uma moral universal é tido como um instrumento de dominação. Embora já tenha sido observado que ninguém consegue viver plenamente com essa asseveração, pois a própria pós-modernidade se torna dogmática na defesa de suas teses e é ideológica sobre suas posições antimoralistas, é um fato que a mentalidade atual se recusa a aceitar, pelo menos em tese, postulados dogmáticos.

A questão da objetividade da verdade sempre foi crucial para o calvinismo. O apego à Escritura foi o instrumento principal da Reforma para resistir a Roma. A Reforma apregoou o “Sola Scriptura”, dizendo que somente a Escritura (não o Papa, nem a igreja ou a tradição) podia dizer aquilo que devia ser aceito como verdade absoluta. Durante as Idades Média e Moderna, as pessoas acreditavam na existência de referências que podiam definir o que é verdade do que é falso. Contudo, como defender a verdade bíblica na pós-modernidade?

No caso deste estudo, primeiramente não repetindo um erro comum cometido na modernidade, que se refere à tendência de interpretar a Bíblia com os óculos de uma só época. Isso se deu tanto no liberalismo quanto no fundamentalismo. O primeiro usou os óculos da modernidade para dizer que a Bíblia não era um livro sobrenatural, já o segundo usou os óculos da modernidade para dizer que a Bíblia era um livro confiável.

Interessa, agora, tratar mais longamente sobre este segundo caso. É notável o excesso de literalismo que dominou a interpretação bíblica conservadora que, de certa maneira, foi fruto do iluminismo. Para ilustrar isso utilizando um único ponto de discussão entre religião e modernidade, observe-se a espinhosa questão da descrição bíblica da criação do mundo. Talvez esse tenha sido o maior ponto de discussão no debate entre ciência e religião (ainda bastante sensível) por meio do sedimentado debate “evolucionismo-criacionismo”, que se desenvolveu em linhas gerais do seguinte modo: a ciência procurando negar a existência de Deus ao desmentir que o mundo foi criado como a Bíblia descreve, e os religiosos tentando provar que a ciência estava errada e que a Bíblia estava certa.

McGrath faz uma inquietante avaliação desse debate:

Desde o século 19, a religião e a ciência frequentemente parecem estar presas a um combate mortal, na cultura ocidental. Alguns escritores sugeriram que isso retrata uma influência excessiva de Calvino sobre o cristianismo ocidental. Contudo, de forma paradoxal, isto se dá precisamente em razão de Calvino ter tido uma influência muito pequena sobre seus seguidores posteriores (2004, pág. 289).

O que McGrath está dizendo é que Calvino não tinha uma interpretação literal a respeito da criação do mundo igual à que foi sustentada pelos seus seguidores. McGrath diz: “Para Calvino, mesmo a ideia dos ‘seis dias da criação’ foi uma adaptação divina às capacidades cognitivas humanas; ela não deve ser tomada como verdade ao pé da letra” (2004, pág. 289).1 Por isso, McGrath conclui:

Se Calvino tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores contemporâneos, talvez um dos aspectos centrais da moderna cultura ocidental – o conceito de uma tensão entre religião e ciência – tivesse sido evitado. Todo o debate sobre a evolução teria tomado um curso radicalmente diferente, se ele tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores posteriores (2004, págs. 289-290).

Não é possível ter muita convicção a respeito disso, pois a indisposição em relação ao outro lado foi mútua, e não apenas uma rejeição da religião à ciência. De qualquer modo, esse é um ponto que precisa ser analisado mais cuidadosamente. As observações de McGrath são baseadas no comentário de Calvino a respeito do texto de Gênesis 1, que narra a criação do mundo em seis dias. Talvez McGrath esteja indo longe demais ao quase dizer que Calvino poderia concordar com as teorias científicas, mas é um fato que, falando sobre o uso antigo das expressões “tarde-manhã” para descrever a duração do dia, Calvino diz que Moisés “acomodou seu discurso para um sistema estabelecido” (Calvino, Gn 1.5). Ou seja, Moisés utilizou o sistema de sua época que contava o dia desse modo para fins de comunicação. Falando contra a opinião daqueles que negavam que o mundo tivesse sido criado em etapas, Calvino diz que “Deus mesmo tomou o espaço de seis dias, para o propósito de acomodar suas obras para a capacidade dos homens” (Calvino, Gn 1.5). E ao fazer isso, segundo Calvino, ele se revelou ainda mais como um Deus glorioso e gracioso.

Isso está conectado ao conceito de inspiração advogado por Calvino. Segundo McGrath, Calvino desenvolveu, no século 16, uma teoria incrivelmente sofisticada sobre a natureza e a função da linguagem humana (2004, ver pag. 154). Nas Escrituras, segundo Calvino, Deus se revela por meio de palavras. Essas palavras humanas conseguem falar algo sobre Deus, mas são limitadas. Aqui está uma das grandes contribuições de Calvino para o pensamento cristão: o princípio da acomodação. Ou seja, a palavra divina adapta-se ou acomoda-se à capacidade humana, para suprir as necessidades da situação. Em outras palavras, Deus se retrata de uma forma que o homem tinha condições de compreender. Parece realmente lógico, pois se Deus se revelasse exatamente como é, quem poderia compreendê-lo? McGrath conclui: “Assim, Calvino observa que muitos dos aspectos da história da criação e da queda (Gênesis 1–3), tais como o conceito de ‘seis dias’ ou das ‘águas sobre o firmamento’, são adaptados à mentalidade e às perspectivas de um povo relativamente simples” (2004, págs. 155-156). Essa é realmente uma informação importante que abre nova perspectiva para entender aquele velho conceito reformado da revelação como “progressiva e adaptável”.2

1. Apesar de Warfield defender que Calvino entendia os seis dias da criação como seis dias literais (1931, ver pag. 292).
2. Vos conceituou a revelação como sendo “histórica, progressiva, orgânica e adaptável”. Histórica, porque se deu num dado momento histórico em que aconteceu o evento redentivo. Progressiva, porque nem tudo foi revelado de uma só vez. Orgânica, porque o conhecimento da redenção foi suficiente em cada estágio de desenvolvimento. E adaptável, porque “tudo o que Deus autorrevelou veio como resposta às necessidades religiosas práticas de seu povo na medida em que estas iam surgindo no decorrer da história” (Vos, 1948, pág. 17).

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

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