DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE PARA O NOVO CALVINISMO: A questão dos paradoxos

Publicado: 26/10/2010 em Sem categoria

por Leandro Antonio de Lima

Um dos conceitos mais explícitos da Escritura que jamais poderia se encaixar com a mentalidade iluminista é o seu caráter indisfarçadamente paradoxal. Literalmente, paradoxo é aquilo que contraria a “doxa”, que pode ser traduzido como “louvor”, sendo, portanto, “aquilo que está certo e deve ser louvado”. Assim, a ortodoxia pretende ser aquilo que é correto, estritamente falando. Paradoxo é algo que destoa, ou seja, algo que não se encaixa perfeitamente e compreensivelmente dentro do conceito de “orto”. De certo modo, é uma contradição, mas não uma contradição clara, absoluta e absurda, e sim uma contradição porque diz respeito a coisas que não podem ser medidas com a “orto”. Diz respeito a algo que extrapola as medidas comuns, algo que está além delas.

A Bíblia é um livro que assume o paradoxo sem tentar explicá-lo. A Bíblia é um livro de histórias e tradições antigas. É composta de narrativas históricas, canções, provérbios, poemas e de correspondências entre cristãos primitivos que fazem alusão a situações específicas de suas próprias épocas. É um livro cheio de sentimentos e deve ser lido, vivenciado, interiorizado, aplicado, mas não sistematizado rigorozamente ao estilo dogmático do iluminismo e sua fixação pela verdade científica. O tipo de sistematização racionalista do iluminismo atenta contra a própria constituição da Bíblia e, por fim, só pode resultar em violência a ela própria. A Bíblia é um livro riquíssimo. Ela é a Palavra de Deus para o ser humano. Uma palavra extremamente coerente com as próprias necessidades do ser humano. A Bíblia, por exemplo, sustenta verdades paradoxais. A vida é paradoxal. O mundo é paradoxal. Nós somos paradoxais. A Bíblia nos ajuda a viver cada momento de cada vez, de acordo com nossa própria estrutura. Lendo a Palavra, é possível encontrar respostas diferentes para situações diferentes, respostas que bem podem ser contraditórias, se o objetivo fosse enquadrar a Bíblia dentro das categorias racionalistas da lógica aristotélica.

Um exemplo pode ajudar, e agora se entra novamente no mundo da teologia: a Bíblia sustenta igualmente a soberania de Deus e a liberdade humana. Ambas as concepções podem ser encontradas na Bíblia. Há textos que falam sobre os decretos de Deus, sobre a predestinação e sobre o absoluto controle que Deus exerce sobre o mundo e sobre suas criaturas por meio da providência, mas também há textos que falam que o ser humano é livre para fazer suas próprias escolhas e que é o único responsável por elas. Quem lê só os primeiros textos, diz que seu Deus sabe todas as coisas, nunca é surpreendido por coisa alguma, nunca muda de opinião e mantém tudo sob seu mais estrito e absoluto controle, e, às vezes, por isso, essa pessoa assume uma concepção teológica que poderia ser chamada de hipercalvinismo. Quem lê apenas os últimos textos percebe que, às vezes, esse Deus parece se arrepender, mudar de opinião, agir de um modo que ele próprio havia dito que não agiria e parece um tanto quanto surpreendido com atitudes do ser humano. Então, essa pessoa advoga uma posição conhecida como arminianismo. Quem está com a razão? Qual teologia está mais correta? Qual é a melhor “descrição de Deus”? As duas se baseiam em textos bíblicos, mas apenas nos textos que sustentam sua própria visão. Ambas estão erradas justamente porque querem forçar um padrão que simplesmente não há no texto bíblico. Ambas querem eliminar as exceções e fixar um modo estrito de Deus agir. Isso é iluminismo. O curioso é que a Bíblia narra que, ao mesmo tempo, Deus é soberano e o homem é livre e responsável, e faz isso num mesmo texto, e várias vezes, sem tentar harmonizar ou dar maiores explicações (Veja Fp 2.12-13; Lc 22.22; At 2.22-23).

A Confissão de Fé de Westminster captou isso perfeitamente. Uma leitura atenta do texto da confissão mostra que algumas palavras frequentemente aparecem. São elas: “mas”, “porém”, “contudo”, “todavia”, etc. Essas palavras são conjunções adversativas. Por que há tantas conjunções adversativas na Confissão de Fé? A resposta é que os teólogos puritanos de Westminster não quiseram eliminar o paradoxo. Veja um dos textos mais conhecidos da confissão:

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (III,1).

É impressionante como os teólogos de Westminster entenderam o paradoxo bíblico e não o quiseram eliminar. Isso prova que eles não foram racionalistas. Um racionalista nunca poderia sustentar as duas afirmações acima ligadas pela palavra “porém”. Um racionalista só poderia dizer que, ou Deus decretou tudo ou o homem é livre.

O paradoxo não diz respeito apenas às doutrinas da soberania de Deus e da responsabilidade humana. Deus é um ser paradoxal e isso pode ser visto em toda a Bíblia. Ele é transcendente e imanente. Tem propósitos eternos e ação temporal. É justo e amoroso. Quase sempre a sustentação dessas virtudes, principalmente como elas são descritas na Bíblia, só poderia ser considerada contraditória pela mente enciclopédica iluminista. O próprio conceito mais equilibrado sobre a inspiração atesta que a Bíblia é palavra de Deus e palavra do homem. O que é isso senão um grande paradoxo? Jesus Cristo é totalmente Deus e totalmente homem. É o logos eterno que se encarnou. É o imortal que morreu na cruz. Esse é o supremo paradoxo da Bíblia. Nenhuma descrição poderia ser mais incompreensível para uma mente puramente racional do que essa. O homem descrito pela Bíblia também é um ser paradoxal. Ele é mortal, mas tem uma alma imortal. É bom, mas é mau, pois é feito à imagem de Deus, mas é totalmente depravado em virtude do pecado. Certamente, essas descrições estão mais para a pós-modernidade do que para a modernidade.

O que se pretende dizer com isso é que o conceito de verdade sustentado pela Bíblia não tem a ver com o conceito proposicional do iluminismo. O conceito de verdade apresentado pelo Novo Testamento nada tem a ver com o conceito racionalista de algo que pode ser testado objetivamente por ferramentas cartesianas ou aristotélicas. Verdade, conforme o Novo Testamento, “não é algo abstrato nem puramente objetivo; é pessoal” (McGrath, 2007, pág. 149). A verdade chama as pessoas para um relacionamento, para um pacto. Conhecer a verdade, portanto, é muito mais do que assentir intelectualmente para algo, ou chegar à conclusão de que aquilo passou nos testes de averiguação, e sim experimentar no interior uma certeza confirmada pelo Espírito Santo que faz sentido tanto para o intelecto quanto para o coração. Grenz diz: “Não devemos deixar de reconhecer a importância fundamental do discurso racional, porém, nossa compreensão da fé não deve se limitar à abordagem proposicional que nada mais vê na fé cristã a não ser a correção da doutrina ou a verdade doutrinária” (1997, pág. 246).

Resumindo: cremos na Bíblia não necessariamente porque ela é uma fonte de verdade proposicional e objetiva, nem porque pode ser testada por critérios científicos, mas porque expressa a verdade conforme podia ser percebida nas mais variadas épocas em que foi escrita, e acima de tudo porque faz sentido para nosso ser integral, debaixo da influência do Espírito Santo. É nossa convicção que o trabalho conservador de análise da Bíblia tem feito um trabalho suficientemente frutífero no sentido de rebater as críticas iluministas e liberais à Bíblia, mas não é nossa convicção que este trabalho é suficiente para provar a verdade da Bíblia. Isso é uma tarefa do Espírito, como defendia Calvino. Trabalhar alinhado com o Espírito não é utilizar argumentos do racionalismo para justificar práticas eclesiásticas e, ou, gostos pessoais, mas esforçar-se para que essa mesma Bíblia seja compreendida pelas pessoas de hoje e faça sentido. Caso contrário, não haveria se quer a necessidade de pregação. É a própria Bíblia que enfatiza a importância da pregação, justamente porque ela é a ferramenta que faz com que a Bíblia possa ser entendida, admirada e vivenciada em cada estágio da humanidade. Senão, bastaria apenas lê-la.

Fonte:http://novocalvinismo.blogspot.com/

Anúncios
comentários
  1. Foi o Rodrigo que me indicou o seu site. Comecei a ler e gostei — até porque o outro lado da rua era onde eu estudava… Estive no Seminário Presbiteriano de Campinas de 1964 a 1966. Depois estudei no Seminário Luterano de São Leopoldo e nos EUA. Acabei deixando a teologia pela filosofia.

    Hoje estou voltando aos poucos. Estou frequentando a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (a Catedral).

    Quem sabe algum dia desses, com a mediação do Rodrigo, talvez, a gente possa se encontrar.

    Um abraço e parabéns pelo seu blog. Sou um blogueiro renitente.

    Eduardo Chaves

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s