Arquivo da categoria ‘Espiritualidade’

Segue abaixo um vídeo e palestras em audio muito interessantes promovidos pelas Edições Vida Nova. 

Bate-papo sobre Igreja Emergente em: http://www.vidanova.com.br/Streaming/entrevista_emergente.asx

 

Conferência de Teologia 2010 em: http://www.vidanova.com.br/news2010/news_conferencia2010.html

1.UM

Publicado: 19/10/2010 em Espiritualidade

Um vídeo que achei bem legal. Brevemente, me fez pensar sobre Deus, sobre o desejo de criar algo novo, sobre o nosso papel e chamado como cristãos no mundo, etc.
Vale a pena visitar a página do 1.UM (www.umpontoum.com)

Jardim

Publicado: 15/08/2010 em Espiritualidade, RELIGION
Tags:

Por Rubem Alves

Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."(Clique aqui para você ler um texto sobre jardins)

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma… Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas… São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada… Um dia você terá saudades… Vocês, então, saberão…" É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas… O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante… E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido… Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma…" Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos…

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera… Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas… Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."

A falta de dúvida gera orgulho, e orgulho gera queda.

Onde está o sábio? Onde está o escriba? Como podemos saber que
um sistema é válido? Um Deus compreendido não é Deus algum! Uma
revelação estática, e definitiva, não é revelação alguma. A Bíblia é a
palavra de Deus à medida em que Deus permite que seja Sua Palavra, à
medida em que Deus fala através dela no desenrolar dos tempos.

A fé cristã não é uma forma religiosa do platonismo,
aristotelianismo, idealismo, absolutismo, existencialismo, ou qualquer
outro-ismo.O cristão deve sempre questionar o que crê , e nunca
desanimar em desconstruir e reconstruir sua crença, quando necessário,
porque está convicto de que Deus é o Deus de toda a verdade.

Se há uma coisa que se destaca em nosso panorama de mais de mil anos
de debates entre os filósofos e teólogos no mundo ocidental, é que
nenhum sistema de filosofia ou teologia já se revelou completo e
perfeito. De fato, poderia ser dito que aqueles sistemas que, tais como
o Idealismo e o Dogmatismo, têm feito as maiores reivindicações quanto
serem compreensivos e completos, são precisamente aqueles que são os
mais defeituosos. Em intervalos quase regulares no decurso dos séculos,
alguém topa com uma idéia que tem algum direito a ser considerada
verídica. Passa então a ser aumentada em sistema que, segundo se pensa,
é capaz de explicar tudo. É aclamada como a chave para destravar todas
as portas. Mais cedo ou mais tarde, porém, seus defensores se acham
obrigados a negar a existência de tudo quanto a chave deixa de
destravar, ou a confessar que ela não é bem tudo quanto imaginavam que
fosse. Por algum tempo, o sistema parece arrastar tudo consigo.
Finalmente, porém, as pessoas ficam desiludidas, e experimentam alguma
novidade – Por isso sempre digo: “de omnibus dubitandum” [de tudo
duvidar] é algo para apostar.

O que freqüentemente acontece tanto na teologia quanto na filosofia,
é que alguém acha por acaso alguma coisa que já há muito tempo passado
desapercebida, ou sente a necessidade de esclarecer algum aspecto da
experiência ou de relacioná-lo com o pensamento “ pós-moderno”. Os
racionalistas do século XVII sentiam a necessidade do raciocínio claro
e da demonstração racional. Os idealistas do século XIX sentiam a
necessidade de relacionar a totalidade da experiência a uma causa
espiritual ulterior. Kierkegaard no mesmo século sentia que a
explicação dada pelos idealistas deixava fora de consideração o
indivíduo e a vida real. No século XX Cornelius Van Til, Karl Barth e
Francis Schaeffer, gastaram um bom tempo reiterando suas considerações
sem realmente explicá-las. Em todos estes casos, os respectivos
pensadores ficaram tão impressionados com seu discernimento específico
que o edificaram num sistema mais ou menos rígido que virtualmente
destruiu sua utilidade original.

Não se quer dizer com isto que nenhuma crença nunca seja válida, e
que nada possa verdadeiramente ser conhecido. Pelo contrário, nos
impulsiona a uma fé misteriosa, que eleva à Deus e sua Palavra.
Trata-se do seguinte: se há alguma coisa que devemos aprender da
história, da teologia e da filosofia, é que devemos acautelar-nos
contra adotarmos um só grupo de idéias absolutas ao ponto de excluir as
demais, e devemos ser críticos em nossa avaliação de todas elas. Assim
como nenhum ser humano por si só tem conhecimento exaustivo de toda
realidade, embora talvez tenha discernimentos parciais e válidos neste
ou naquele campo da experiência, assim também nenhuma teologia abrange
tudo. Seus discernimentos e métodos freqüentemente são tentativos e
provisórios. Talvez tenha uma apreensão válida disto ou daquilo. Seus
métodos talvez sejam frutíferos em explorar certos campos específicos.
Se porém, formos sábios, ficaremos precavidos contra sistemas
definitivos e métodos alegadamente onicompetentes de abordagem. Enfim,
nos agarraremos na dúvida, no amor, na fé e na esperança, porque Deus é
Deus, e nós somos homens.

fonte:http://nelsoncostajr.com/