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por Leandro Antonio de Lima

Não pode haver dúvidas de que Calvino sustentava um conceito de inspiração que somente poderia ser descrito como “verbal” e “plenário”, estendendo-se tanto à linguagem quanto ao estilo (Polmann, 1974, pág. 102). Entretanto, para Calvino, Deus se revelou adaptando-se à capacidade humana, isso quer dizer que ele usou descrições e palavras que tornavam compreensíveis para o ser humano a mensagem. São muitos os textos de Calvino que descrevem esse processo. No comentário de Deuteronômio, ele assinalou:

Os crentes têm que sempre recordar que Deus não falou de acordo com sua natureza. Se tivesse falado com sua própria linguagem, que mortal poderia ter compreendido? Não! Como ele tem nos falado na Escritura Sagrada? Tem se adaptado a nossa reduzida natureza como uma babá balbucia palavras a uma criança adaptando-se a seu nível de entendimento. Assim, Deus tem se adaptado a nós, uma vez que nunca estaríamos em condições de compreender o que ele diz, se não tivesse se aproximado de nós. Consequentemente, ele faz o papel de uma babá na Escritura (Citado por Polmann, 1974, pág. 110).1

Calvino não tinha dificuldades em entender que certos termos utilizados na Bíblia foram acomodados para a compreensão de um povo que era, segundo suas palavras, rude, ignorante e imperfeito (Ver comentários de Calvino em Dt 22.23; Êx 24.9; Êx 33.21; Dt 30.1). Para Calvino, quando Deus fala, “ele se acomoda à nossa capacidade” (1996, pág. 82, 1Co 2.7).

Em outro lugar, Calvino volta a descrever a tarefa divina de se revelar como a de uma babá que balbucia a um infante, não obstante, ele entende que isso não desqualifica a Escritura, antes faz com que nos apeguemos ainda mais a ela, pois somente ela pode nos mostrar quem é Deus:

Onde quer que falemos dos mistérios de Deus, temos que tomar a Escritura como Guia, adotar a linguagem que ela ensina e não nos exceder nesses limites, já que Deus sabe que nossa mente não pode ascender tão alto como para compreender a ele se tivesse que empregar palavras dignas de sua majestade, e, por isso, ele se adapta a nossa pequenez. E como uma babá balbucia ao infante, assim ele emprega uma linguagem especial para nós, de forma que possamos compreendê-lo (Citado por Polmann, 1974, pág. 111).2

A importância desse conceito está justamente no não insistir no literalismo excessivo da Escritura. Certos aspectos da Bíblia não precisam ser literais para que sejam inspirados ou normativos ou para que tenham o caráter de verdadeiro, como é o caso dos seis dias da criação. Isso, evidentemente, não envolve uma aceitação simples das teorias científicas, nem mesmo uma adaptação às teorias científicas, mas apenas um entendimento mais profundo do caráter da Escritura como revelação de Deus. Faz tempo que os reformados aceitam que a Escritura usa a linguagem do homem comum para descrever os fenômenos. Se a Escritura diz que o sol gira ao redor da terra e que o vento tem seus depósitos em algum lugar, ela o está fazendo nos termos que os homens daquela época podiam compreender. Ela não está usando linguagem científica justamente porque o povo daquela época não tinha acesso à linguagem científica. Assim também ela diz que Deus tem ouvidos e até estômago, além de sentimentos humanos como arrependimento e ciúmes, porque precisa descrever Deus com categorias humanas, afinal, essas são as únicas que o homem consegue entender. Para muitas pessoas, ou todo o texto da criação do livro do Gênesis tem que ser literal, ou não pode mais ser aceito como inspirado. Embora essa opinião deva ser respeitada, talvez não seja necessário tal radicalismo para continuar crendo na inspiração plenária das Escrituras.

É importante que se entenda que o que se está propondo não é um abandono puro e simples das definições normalmente aceitas sobre o caráter da Bíblia, mas apenas um diálogo e uma avaliação de outras possibilidades, como um desenvolvimento da própria concepção de Calvino sobre a Escritura.

Se o conceito de inspiração em Calvino envolve, em algum ponto, uma acomodação, então, definitivamente, ele não poderia ser submetido a um teste de caráter científico. O ponto chave é que Calvino defendia a questão do testemunho interno do Espírito Santo como “prova” definitiva para o cristão da veracidade da Bíblia e não a submissão aos testes empíricos.

Assim, com surpresa, é possível perceber que o conceito de Calvino a respeito da Bíblia tem muito mais potencial para a pós-modernidade do que o literalismo bíblico do fundamentalismo influenciado pelo modernismo. Tinha também mais potencial para a própria modernidade, mas, como McGrath observou, talvez ele não tenha sido levado tão a sério.

1. A citação se refere ao Corpus Reformatorum (XXVI, 387).

2. A citação se refere ao Corpus Reformatorum (VII, 169).

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

por Leandro Antonio de Lima

O grande desafio para o calvinismo, bem como para todo o cristianismo, parece ser o de recuperar os fundamentos. Por meio de seu embate com a modernidade, do qual o calvinismo saiu em frangalhos algumas vezes, o calvinismo usou argumentos para responder à crítica sobre a existência de Deus ou dos milagres e, acima de tudo, para defender a Bíblia, mas agora essa pode não ser a preocupação central. Na pós-modernidade desconstrucionista, diz-se que defender a existência de uma verdade objetiva soa a fascismo e apregoar uma moral universal é tido como um instrumento de dominação. Embora já tenha sido observado que ninguém consegue viver plenamente com essa asseveração, pois a própria pós-modernidade se torna dogmática na defesa de suas teses e é ideológica sobre suas posições antimoralistas, é um fato que a mentalidade atual se recusa a aceitar, pelo menos em tese, postulados dogmáticos.

A questão da objetividade da verdade sempre foi crucial para o calvinismo. O apego à Escritura foi o instrumento principal da Reforma para resistir a Roma. A Reforma apregoou o “Sola Scriptura”, dizendo que somente a Escritura (não o Papa, nem a igreja ou a tradição) podia dizer aquilo que devia ser aceito como verdade absoluta. Durante as Idades Média e Moderna, as pessoas acreditavam na existência de referências que podiam definir o que é verdade do que é falso. Contudo, como defender a verdade bíblica na pós-modernidade?

No caso deste estudo, primeiramente não repetindo um erro comum cometido na modernidade, que se refere à tendência de interpretar a Bíblia com os óculos de uma só época. Isso se deu tanto no liberalismo quanto no fundamentalismo. O primeiro usou os óculos da modernidade para dizer que a Bíblia não era um livro sobrenatural, já o segundo usou os óculos da modernidade para dizer que a Bíblia era um livro confiável.

Interessa, agora, tratar mais longamente sobre este segundo caso. É notável o excesso de literalismo que dominou a interpretação bíblica conservadora que, de certa maneira, foi fruto do iluminismo. Para ilustrar isso utilizando um único ponto de discussão entre religião e modernidade, observe-se a espinhosa questão da descrição bíblica da criação do mundo. Talvez esse tenha sido o maior ponto de discussão no debate entre ciência e religião (ainda bastante sensível) por meio do sedimentado debate “evolucionismo-criacionismo”, que se desenvolveu em linhas gerais do seguinte modo: a ciência procurando negar a existência de Deus ao desmentir que o mundo foi criado como a Bíblia descreve, e os religiosos tentando provar que a ciência estava errada e que a Bíblia estava certa.

McGrath faz uma inquietante avaliação desse debate:

Desde o século 19, a religião e a ciência frequentemente parecem estar presas a um combate mortal, na cultura ocidental. Alguns escritores sugeriram que isso retrata uma influência excessiva de Calvino sobre o cristianismo ocidental. Contudo, de forma paradoxal, isto se dá precisamente em razão de Calvino ter tido uma influência muito pequena sobre seus seguidores posteriores (2004, pág. 289).

O que McGrath está dizendo é que Calvino não tinha uma interpretação literal a respeito da criação do mundo igual à que foi sustentada pelos seus seguidores. McGrath diz: “Para Calvino, mesmo a ideia dos ‘seis dias da criação’ foi uma adaptação divina às capacidades cognitivas humanas; ela não deve ser tomada como verdade ao pé da letra” (2004, pág. 289).1 Por isso, McGrath conclui:

Se Calvino tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores contemporâneos, talvez um dos aspectos centrais da moderna cultura ocidental – o conceito de uma tensão entre religião e ciência – tivesse sido evitado. Todo o debate sobre a evolução teria tomado um curso radicalmente diferente, se ele tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores posteriores (2004, págs. 289-290).

Não é possível ter muita convicção a respeito disso, pois a indisposição em relação ao outro lado foi mútua, e não apenas uma rejeição da religião à ciência. De qualquer modo, esse é um ponto que precisa ser analisado mais cuidadosamente. As observações de McGrath são baseadas no comentário de Calvino a respeito do texto de Gênesis 1, que narra a criação do mundo em seis dias. Talvez McGrath esteja indo longe demais ao quase dizer que Calvino poderia concordar com as teorias científicas, mas é um fato que, falando sobre o uso antigo das expressões “tarde-manhã” para descrever a duração do dia, Calvino diz que Moisés “acomodou seu discurso para um sistema estabelecido” (Calvino, Gn 1.5). Ou seja, Moisés utilizou o sistema de sua época que contava o dia desse modo para fins de comunicação. Falando contra a opinião daqueles que negavam que o mundo tivesse sido criado em etapas, Calvino diz que “Deus mesmo tomou o espaço de seis dias, para o propósito de acomodar suas obras para a capacidade dos homens” (Calvino, Gn 1.5). E ao fazer isso, segundo Calvino, ele se revelou ainda mais como um Deus glorioso e gracioso.

Isso está conectado ao conceito de inspiração advogado por Calvino. Segundo McGrath, Calvino desenvolveu, no século 16, uma teoria incrivelmente sofisticada sobre a natureza e a função da linguagem humana (2004, ver pag. 154). Nas Escrituras, segundo Calvino, Deus se revela por meio de palavras. Essas palavras humanas conseguem falar algo sobre Deus, mas são limitadas. Aqui está uma das grandes contribuições de Calvino para o pensamento cristão: o princípio da acomodação. Ou seja, a palavra divina adapta-se ou acomoda-se à capacidade humana, para suprir as necessidades da situação. Em outras palavras, Deus se retrata de uma forma que o homem tinha condições de compreender. Parece realmente lógico, pois se Deus se revelasse exatamente como é, quem poderia compreendê-lo? McGrath conclui: “Assim, Calvino observa que muitos dos aspectos da história da criação e da queda (Gênesis 1–3), tais como o conceito de ‘seis dias’ ou das ‘águas sobre o firmamento’, são adaptados à mentalidade e às perspectivas de um povo relativamente simples” (2004, págs. 155-156). Essa é realmente uma informação importante que abre nova perspectiva para entender aquele velho conceito reformado da revelação como “progressiva e adaptável”.2

1. Apesar de Warfield defender que Calvino entendia os seis dias da criação como seis dias literais (1931, ver pag. 292).
2. Vos conceituou a revelação como sendo “histórica, progressiva, orgânica e adaptável”. Histórica, porque se deu num dado momento histórico em que aconteceu o evento redentivo. Progressiva, porque nem tudo foi revelado de uma só vez. Orgânica, porque o conhecimento da redenção foi suficiente em cada estágio de desenvolvimento. E adaptável, porque “tudo o que Deus autorrevelou veio como resposta às necessidades religiosas práticas de seu povo na medida em que estas iam surgindo no decorrer da história” (Vos, 1948, pág. 17).

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

por Leandro Antonio de Lima

Costuma-se dizer: “Repetir sem entender é coisa de papagaio”. Os donos de papagaios domesticam os pássaros para que repitam palavras decoradas. As vezes se pensa que os papagaios estão sendo inteligentes por repetirem aquilo que foram condicionados. Mas a verdade é que as pobres aves literalmente “não sabem o que estão falando”. Pensamos que muitas vezes uma cena semelhante pode ocorrer na igreja. Os líderes eclesiásticos fazem as pessoas engolirem um tipo de cristianismo sem lhes dar explicações convincentes sobre o que estão ensinando, e sem demonstrar que seus ensinos têm base na Palavra de Deus. Essa teologia é imposta por causa do carisma do líder ou por causa do grupo que ele representa (tradição). E estes “pobres cristãos” saem por aí repetindo ensinos que foram condicionados a repetir. Talvez nunca pensam sobre eles.

Um cristão deveria ser alguém com discernimento. Não poderia engolir tudo que ouvisse por aí sem considerar atentamente o que está ouvindo. O caos da irracionalidade moderna não deveria atingir a fé. Mas infelizmente, hoje em dia, as grandes doutrinas da Palavra de Deus estão quase esquecidas. Em geral, as pessoas sabem muito pouco sobre os atributos de Deus, as naturezas de Cristo, ou sobre o verdadeiro significado do batismo com o Espírito Santo. E quando sabem, parecem não ter muito interesse a respeito. Se as questões escatológicas causam discussão, por outro lado são apenas superficiais, em assuntos selecionados, e muito mais voltadas para especulações sobre o milênio ou o arrebatamento do que para conteúdo substancial. Uma das razões dessa falta de conteúdo tem a ver com as obras teológicas publicadas. Boas obras de teologia, muitas vezes, estão em linguagem inacessível para os não iniciados. Enquanto isso as prateleiras das livrarias cristãs estão cheias de livros de auto-ajuda, que prometem soluções milagrosas em apenas “alguns passos”, mas que não trazem verdadeiro crescimento na graça e no conhecimento de Deus (2Pe 3.18).

O fato é que ser cristão hoje está se tornando apenas questão de sentimentalismo. E as vezes, até de gosto pessoal. No senso comum dos nossos dias, o cristão verdadeiro não é aquele que “sabe” mais, e sim aquele que “sente” mais (teve “experiências”). A ênfase no sentimentalismo é uma das marcas do relativismo do mundo pós-moderno. Até porque, sentimentos são coisas extremamente subjetivas e relativas.

A fé deve ser bem fundamentada e amplamente convincente não somente no aspecto emocional, mas também no racional. Como diz Michael Horton, todo cristão deveria ser indisposto a aceitar com o coração uma fé que falha em convencer sua mente. Mas a verdade é que, muitas vezes, a igreja se torna o local onde as mentes são menos exigidas.

Infelizmente, muitos cristãos são acostumados a não pensar a respeito de sua fé. São como papagaios, ensinados a repetir coisas que não entendem, apenas para causar admiração nos outros. Nestes tempos quando a autojustificação ou a auto-ajuda têm dominado a pregação, as publicações e os programas televisionados, precisamos urgentemente de um retorno para a mensagem da graça, para a mensagem do comprometimento bíblico-teológico. Nosso sentido e propósito, como indivíduos e como igreja, dependem largamente de quão claramente compreendermos as verdades sobre quem Deus é, quem nós somos, e o que o plano de Deus para a história envolve. E esse é o papel da teologia.

Mesmo sabendo da complexidade de muitos dos assuntos que serão considerados aqui, objetivamos dialogar sobre questões que fazem parte do dia-a-dia dos crentes (aqueles que têm fé) e mesmo dos não-crentes. Não queremos tratar de assuntos teológicos como se nada tivessem a ver com a vida prática das pessoas. O que se pretende é uma análise sincera, de uma perspectiva bíblica, sobre assuntos selecionados que são vitais para um verdadeiro conhecimento de Deus, e uma vida cristã frutífera.

O estudante de teologia nunca pode se esquecer de um princípio fundamental: Sua teologia precisa servir para alguma coisa. Podemos perceber um excesso de abstrações teológicas em muitas obras, profundo conhecimento histórico e pesquisa séria, porém, pouca aplicação. Enquanto os “intelectuais” cristãos se deliciam com manjares, é possível que o povo simples esteja sem o alimento de que tanto precisa. Precisamos mais do que nunca traduzir a teologia para a linguagem do povo, uma teologia com aplicação prática. O objetivo desses estudos é conhecer melhor o Deus das Escrituras para desenvolver um relacionamento melhor com ele, ou seja, teologia para a vida.

Entendimentos errôneos acerca de Deus têm minado a verdadeira religião nos quatro cantos do mundo, introduzindo erros e heresias destruidoras na vida individual do povo de Deus e também em denominações inteiras. Conhecer doutrina não é coisa sem importância, é assunto fundamental para os dias em que vivemos. Um “calvinismo novo” não traz necessarimente novas doutrinas, mas se preocupa em tornar as antigas doutrinas da Palavra de Deus acessíveis para as pessoas de hoje.

Nos próximos posts falaremos a respeito de como o Novo Calvinismo precisa lidar com os desafios da época atual.

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

Existe criação surgida do nada? A cineasta Nina Paley acredita que não. E fotografou e animou artefatos arqueológicos do Metropolitan Museum of Art para provar que a criatividade é sempre sustentada em um trabalho anterior, e que todos os trabalhos são derivativos.

E fez o seu próprio:

Legal é visitar o link: http://www.questioncopyright.com

(a paz do senhor, agradeço pela rica oportunidade
Pois o momento é oportuno pra que alguém fale a verdade.
O espírito santo toma o meu ser e guia a ponta da pena,
Eu já começo a receber a luz do grande estratagema.
Entrego todo o meu ser e toda minha premissa,
Então começa a nascer fome e sede de justiça.)

Crescemos acreditando em alguns personagens dos púlpitos,
Mas descobrimos que alguns da liga da justiça eram corruptos,
Mas ai de nós que temos espírito de ousadia,
No mínimo dirão que é espírito de rebeldia.
Deus tem o espírito santo, o diabo espírito imundo,
Os homens criaram espírito de rebeldia pra manter nosso espírito mudo.

Shhhii, calado! nem pense em fazer cara feia.
É melhor não discordar se quiser participar da ceia.
Eu vim pra fazer graça, mas não sorria porque é sério,
Foi fazendo essa mesma graça que morreu martin lutero.

Nossos teólogos respondem perguntas que ninguém fez,
Nossos representantes são servos submissos da altivez,
Eu prefiro seguir ao mestre que nos ensinou a lição:
“aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.

E os programas de tv que eram pra pregar salvação,
Estão fazendo propaganda de igreja e divulgação de livros e revistas,
Cds e dvds e transformando o servo humilde em um fantoche em seus porquês.

Cadê a pregação da cruz?
Pegaram emprestado como emblema o nome do nosso senhor jesus,
Mas quando forem aplaudidos pensando que se deram bem…
Não se esqueça que deus não divide sua glória com ninguém.

A graça da garça.
A arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.

Num país onde nosso futuro dorme em baixo de viadutos com
Frio, febre e fome, infelizes mentes de adultos,
Os nossos profetas diriam: “eis que também não vivem na luz”
E eu te pergunto no evangelho o que diria jesus?

O filho do homem não tem lugar pra reclinar a cabeça,
Alguém me explique este evangelho antes que eu enlouqueça!
Qual evangelho está certo? o de jesus ou o da igreja?
Me explique irmão! porque esta expressão de surpresa?
Vejo que não é o mesmo evangelho, conquanto,
Nos ensinam a chamar nossas culpas de espírito santo.

Porque as mulheres que por jesus foram perdoadas
Hoje por nós são vitimadas, julgadas e apedrejadas?

Por que o confesso é excluído? por que o possesso é incluído?
Por que os que foram injustiçados sempre fecham comigo?
Por que os que cobrem seus pecados são chamados de amigo,
Enquanto o confesso que pede perdão é humilhado e banido?

Eles bradam: arrependei-vos. sem arrependimento,
Depois que conheceram as riquezas já não pregam o arrebatamento.

Não acho ruim ter mansão, nem carro nem condição,
Nem lancha, nem ter dinheiro, nem jato nem avião.
Só digo uma coisa meu irmão, melhor prestar atenção:
“onde estiver seu tesouro estará também o coração.”

Os nossos levitas fazem show, sua fama é um mundo ilusório,
Já não existe adorador, só animador de auditório.
Viram? eles já não levam mais a arca da aliança
Porque são carregados por um bando de seguranças.

Deus vê todas as coisas, nada lhe é oculto nas cidades,
Mas ainda procura quem o adore em espírito e em verdade.
E a nossa fé a cada dia vai descendo ao declive,
Deus destruiu sodoma e gomorra mas o seu espírito ainda vive:

Quem não tem carro e dinheiro tem encosto,
Quem tem bens, ações e milhões paga o imposto,
Me diga, esse é o evangelho por jesus cristo proposto?
Porque o antigo brilho no olhar já não está no seu rosto?
Eles bradam como joão batista e são mestres,
Mas ninguém fica no deserto comendo gafanhoto e mel silvestre.

Terno de microfibra, sapato italiano modelo,
Mas ninguém quer ficar no sol vestindo pele se camelo.

Numa coisa eles imitam a joão batista, reconheça,
Receberam a missão de acabar perdendo a cabeça.

Loucos! e se hoje te pedirem a tua alma?
Louco! pra que te servirá todas as palmas?
Louco! se a selva de concreto se tornou tua mansão
Não se esqueça que nela deus soltou seu filho o leão.

A graça da garça.
A arte de viver em meio á lama sem sujar as vestes.

Mas quem tem fome e sede de justiça farto será!
Eles falam em línguas estranhas o que eu faço é interpretar.
Ela desce a minha face, as vezes mais quente que o magma,
Eu interpreto língua estranha por que deus interpretou minhas lágrimas.

Arrependa-se, não viva mais uma vida de farsa,
Não deixe satanás sorrir do que você chama de graça.

Nós não precisamos de saquinho de sal pra apaziguar nossa guerra,
Nós somos a luz do mundo, nós somos o sal da terra!
Nós não precisamos de pedrinha de israel
Porque temos a pedra de esquina chamada deus emanuel!

Eu não quero pão de jerusalém, nem mesmo água ungida,
Já bebi águas vivas, já comi o pão da vida!

Eu não creio em oração poderosa, dela eu tenho aversão,
Eu creio num deus poderoso que ouve a minha oração!

Eu pensei que eles não me aceitavam por causa do ritmo,
Mas agora sei que não me aceitam porque eu prego o evangelho legítimo.
Mas como foi escrito nos tempos remotos da antiguidade:
Que eles rangeriam os dentes ao ouvir a verdade.

Enfim no grande dia em que deus mostrar seu poder,
Verá que o evangelho fez graça, mas nunca brincou com você!

A graça da garça.
A arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.

Traduzida ao pé da letra, netweaver significa tecelões de rede. Net é rede. Weaver significa tecelão. Ou seja, “netweaving” é o ato de tecer redes. 

Tecer redes amplia as possibilidades de interatividade e cooperação em qualquer esfera. O ato de tecer com, sugere confiança.  “Tecer com” tem o mesmo sentido que “fiar com”. A essência é confiar, ou seja, “fiar com”.  Tecer é criar elos, vínculos, nós ( ou nodos) de credibilidade.  Essa ideia não é nova.  Na verdade tem sua origem com o  socialismo utópico  / cooperativismo em 1800 com Saint Simon e Fourier e no próprio conceito de dialética.

No cooperativismo os meios de produção (que são os geradores de riqueza) não se encontram na mão do Estado nem estão a serviço do capital de uma minoria. Eles se encontram pulverizados entre os membros das cooperativas (ou da rede), extinguindo assim uma relação exploratória e/ou expeculatória (como no caso das sociedades anônimas/bolsa).  No campo social, a formação de redes colaborativas permitem a atuação da sociedade civil de forma mais inteligente. No campo religioso, uma eclesiologia cooperativista assume uma função dialética importante pois a igreja passa a dialogar não somente com sua denominação ou com igrejas com a “mesma visão”, mas dialoga e coopera em prol do ser humano com a sociedade como um todo, ficando livre para colaborar com diversas entidades, associações, iniciativa privada, governo e até outras confissões religiosas. A idéia de igreja 2.0 não é uma igreja  hi-tech, mas é uma igreja que se adequa ao pensamento pós-moderno, que sabe se relacionar e investe em relacionamentos e na participação comunitária.

Realmente creio que nunca houve ambiente tão propício para que o cooperativismo fosse considerado como alternativa viável, pois nossa época está totalmente interconectada e aberta a novas propostas "colaborativas", ou seja, tem potencial absurdo. Basta ver a quantidade de redes sociais, projetos "open source", geração Y, iniciativas como o RENAS, tribalgeneration, e muitas outras que se organizam via internet gerando ações práticas de acordo com o objetivo de cada uma.

Porém faço uma distinção entre colaboração e cooperação. Considero que primeira não requer que se assuma um compromisso firme, coisa que já ocorre na segunda. Muitos estão dispostos a colaborar, mas poucos a cooperar.  É neste momento que a presença do netweaver faz toda a diferença, pois é o responsável por transformar iniciativas e capital humano colaborativo em cooperativo. Segundo a Wikipedia (grande exemplo de colaboração), existem quatro condições que tendem a ser necessárias para que se desenvolva o comportamento cooperativo entre dois indivíduos, que eu agruparia em coletivos e individuais:

Coletivos / Ideais

  • Motivações ou desejos coincidentes
  • Um valor associado a consequências futuras do comportamento analisado

Individuais / Egoistas

  • A possibilidade de futuros encontros com esse indivíduo
  • A memória de encontros passados com esse indivíduo

 

Porém, para ocorrer uma transição profunda, uma real superação do modelo capitalista, cabe ao Estado incentivar verdadeiramente e promover a disseminação do cooperativismo através de incentivos fiscais e outras condições de forma que seja mais barato comprar de cooperativas. Gradualmente o cooperativismo passaria a substituir o sistema vigente, pois no capitalismo se dá preferência ao menor custo e ao que tem melhor competitividade. 

As cooperativas não interessam aos grandes grupos globalilzados, pois em se tornando uma "união de pequenos", se fortaleceriam podendo rivalizar com as mesmas em economia de escala e produtividade.  Como diz Hans Küng: “sem a ajuda das religiões dificilmente se poderia colocar em prática, e com amplo apoio, a obrigação de auto-restrição: de frear o poder, de diminuir o prazer por causa da humanidade futura”.  

Assim, as igrejas tem um papel para esta transformação. Através de uma eclesiologia cooperativista, a Missio Dei poderia ser “empoderada” (sic) pois rompem-se as barreiras denominacionais (restritas apenas aquela confissão religiosa) e visionárias (baseadas em modelos de crescimento).  Uma teologia cooperativista seria uma proposta alternativa à teologia da prosperidade, baseada no capitalismo/neoliberalismo e a teologia da libertação, influenciada pelo socialismo. Em uma leitura cooperativista, Deus se revela  na cooperação da  trindade com seu povo e do relacionamento da igreja com a comunidade.

Este artigo não tem uma conclusão. O deixo em aberto com o propósito que você visite os links abaixo, pense nisto e tire as suas próprias conclusões.

Recomendo a leitura do artigo do Ariovaldo Ramos (Cooperativas de Deus) neste blog: (http://dooutroladodarua.com.br/blog/cns!9E1BBBE47FCF7CF2!287.entry) e coloco abaixo alguns links e vídeos que acredito ser interessantes:

 

 

 

 

 

Creio que o pequeno trecho abaixo, retirado do “http://blogdawesth.blogspot.com” pode levar-nos a refletir sobre a nossa própria existência nestes tempos de pós-modernidade. E porque não ajudar-nos a levantar outras questões?

“…Alice, perdida em um mundo diferente e estranho ao seu, perdida e não entendendo o seu tamanho e também como se colocar nesta nova situação de mudança . Presa ainda na sua antiga vida e já perdendo o referencial e não entendendo as novas mudanças tão rápidas, diz no capítulo dois assim:

Meu Deus! Meu Deus! Como tudo é esquisito hoje. E ontem era tudo exatamente como de costume! Será que fui eu que mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando eu levantei hoje de manhã? Eu estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: Quem é que eu sou? Ah, essa é a grande charada…”


Desconstrução

Publicado: 23/05/2009 em Sem categoria
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009
escrito por Marcelo Paiva, O Estado de S.Paulo, Seção: crônica


Nós artistas somos esquisitos.

Lá pelos anos 80, decretamos que vivíamos enfim na era pós-moderna. Vendemos livos teóricos explicando o que era isso e o que o diferenciava do modernismo. Pesquisamos e debatemos. Selecionamos aquilo ou aquele que era ou não era pós-moderno.

Fui atrás do sentido. O pós-modernismo veio casado com o hiper-realismo, em que a expressão da imagem e a digitalização passou a ser mais realista que a realidade, a hiper-realidade, fruto das novas tecnologias.

A idéia nasceu nos anos 50, quando se percebeu que, na era do consumo, a imagem (o simulacro) era mais sedutora do que o real.

Nessa nova era, perdíamos o referencial. Um exemplo grosseiro: com uma máquina de escrever, sabíamos que apertar uma tecla originava um movimento mecânico em que uma alça pressionava uma fita com tinta, que imprimia uma letra no papel; com um computador, não tínhamos idéia de como se fazia a trasição entre o gesto mecânico e a letra.

O mundo se tornaria confuso. Nossos cérebro deveria aprender a conviver com o desconhecido, que faria parte da rotina. No livro O QUE É PÓS-MODERNO, da Brasiliense, se ensinava que entrávamos na era do “de”: desreferencial, desabilitar, desconstrução…

Ontem fui ver MOSCOU, de Eduardo Coutinho, o papa do documentário no Brasil, em cartaz no É TUDO VERDADE (festival de documentários em SP, Rio e Brasília, cujo o ingresso, vale acrescentar, é gratuito!!!).

O filme conta a história da peça AS TRÊS IRMÃS, de Tchekhov, através dos ensaios de um grupo, O Galpão, com um diretor convidado, Kike Dias. Misturam trechos do texto com desabafos dos atores. Os exercícios propostos pelo diretor do grupo, os workshops, entram como uma forma de se contar a história das três irmãs russas que recebem a visita de soldados estacionados em sua vila.

É um filme desconstruindo uma peça em desconstrução; peça que ficou em cartaz, no repertório da Cia dos Atores. Tudo se mistura. O figurino é a roupa do ator. O cenário, uma sala de ensaio, os camarins, um palco nu. Rompem-se todas as regras narrativas. No entanto, está lá, a trama de Tchekhov, acompanhamos as paixões das meninas e seus conflitos.

Descobre-se como levamos para o palco, mesmo ao encenar um texto de 1900, nossas experiências pessoais em fragmentos. É uma aula de cinema, teatro e desconstrução.

Imagine se a moda pega:

1. A indústria automobilística passa a vender carros desconstruídos, cujo banco é uma poltrona velha, rasgada, a buzina, uma música infantil, a água do limpador é colorida, e se entra pelo portamalas.

2. Lançam um celular a corda, com rodinhas. Ou em forma de boneca, que o usuário deve vestir, trocar a fralda. Ao girá-lo, ele diz: “Eu te amo, mamãe”.

3. Um teclado com alavancas. Ao pressionarmos as teclas, elas se erguem e imprimem a letra na tela plasma. O ruído de uma máquina sai pelos altofalantes.

4. Uma impressora multifuncional no formato de uma prensa do século 16.

E por aí, vai…

http://www.igrejaemergente.com.br/?page_id=7

que é igreja emergente?

Não é nossa intenção estabelecer de forma definitiva um significado para o termo “igreja emergente”, porém, é nossa intenção sim, fornecer as bases para que você mesmo construa sua própria resposta à esta pergunta. Sendo assim, a idéia é que tenhamos uma conversa sobre o que é igreja emergente.

Como base para qualquer raciocínio, trata-se de um movimento cristão onde as pessoas buscam viver sua fé em um contexto social pós-moderno. Esta “conversa” busca dar ênfase ao seu desenvolvimento e sua natureza decentralizada, sua vasta gama de pontos-de-vista, e seu compromisso com o diálogo. A maioria das pessoas envolvidas nesta conversa emergente têm em comum um certo nível de descontentamento com a igreja moderna, e o apoio a uma desconstrução da comunidade cristã moderna.

Pensando assim, a idéia de emergente, diferente do que possa parecer, não diz respeito a “emergência” de urgência que a palavra traz, nem tampouco de algo que necessariamente “brota” de algo ou algum lugar, mas está mais relacionado a uma teoria de evolução emergente, onde alguns aspectos são observáveis em uma visão de alto-nível de um sistema complexo, mas meramente deduzíveis da descrição de seus componentes.

Na década de 70, foi introduzido nos meios acadêmicos o termo “estratégia emergente”. Uma estratégia emergente é, essencialmente, uma “estratégia não planejada”, no sentido de uma linha de ação que só é percebida como estratégica pela organização à medida que ela vai se desenrolando ou até mesmo depois que já aconteceu. Como numa comunidade de formigas, onde ninguém as ensinou o seu papel na comunidade, mas todas sabem exatamente o que fazer e o fazem com vistas no bem da comunidade.

Algumas opiniões podem ajudá-lo a entender melhor.

“Entendo Igreja Emergente como uma oportunidade de se fazer livremente perguntas incômodas à luz do evangelho de Jesus Cristo, repensar nossa forma crstã de ser tirando a influência do pensamento moderno que nos moldou e viver essa nova realidade, seja anunciando o Reino de Jesus Cristo a uma sociedade pós-moderna que está longe de ser alcançada pela igreja tradicional, seja curando esse mundo que ainda espera por uma redenção que somente Jesus Cristo pode dar.”
Luis Fernando – criador do RenovatioCafe

Gustavo Frederico nos ajuda nesta tarefa alertando que tentar definir “igreja emergente” não é uma tarefa fácil. Os contextos em que a definição pode ser lida são muitos, cada um deles com seus desafios. Sua intenção não é limitar o que a igreja emergente possa vir a ser.

“Igrejas emergentes são comunidades que praticam o modo de vida de Jesus na cultura brasileira.”
Gustavo Frederico – criador do wiki Emergente

Ou, nas palavras do português Nuno Barreto:

“A igreja emergente é um termo semelhante ao termo reforma. Não há unidade teológica, como não havia entre os diferentes movimentos reformadores protestantes…É verdade que existe um tema principal para o movimento emergente…E esse tema é: A igreja como agente missiológico na terra, livre de instituição e hierarquias, simples, um organismo vivo cuja cabeça é Jesus, e onde a vida cristã é uma vida de comunidade e de compartilhamento.”
Nuno Barreto – autor do blog Simplice

Porém, existem também alertas a serem feitos:

A Igreja Emergente (ou Emergindo) nada mais é do que uma conversa honesta sobre os desafios e oportunidades de viver e comunicar a mensagem cristã no mundo cada vez mais pós-moderno. O diferencial da Igreja Emergente é sua abertura para lidar com as perguntas difíceis sobre o ser cristão no mundo pós-moderno. Perguntas estas que vão desde a prática cristã até a prática eclesiástica e missionária. Afinal de contas, o que é ser cristão? O que é ser igreja? O que significa fazer parte da missão de Deus no mundo hoje? De certo modo, a igreja tem sempre pensado essas coisas a partir de suas tradições eclesiásticas que definem, de muitas maneiras, sua cristologia e missiologia. A Igreja Emergente faz uma tentativa de recuar um pouco e repensar essas questões seguindo uma ordem mais ou menos inversa: uma cristologia que nos impulsione à missiologia, que por sua vez leve à eclesiologia. Em outras palavras, primeiro eu preciso entender Jesus, Verbo Encarnado, e me comprometer com Seu Caminho (proposta prática de vida que Ele apresentou) , abraçando Sua Missão no mundo de hoje e seguindo a jornada com outros seguidores na comunhão da Sua Igreja. O grande risco da Igreja Emergente, em minha opinião é ficar apenas no desconstrucionismo por um lado e, na sua crítica ao Cristianismo institucionalizado, fomentar uma jornada de fé individualista. Para não cair nestas tentações, a Igreja Eemergente precisará manter as três “doutrinas” em equilíbrio diante de si.
Sandro Baggio – pastor do Projeto 242

A pós-modernidade, um desafio à pregação do evangelho

(Apresentada aos pastores do Sul de Minas Gerais, 2002)
Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

http://www.isaltinogomes.com


INTRODUÇÃO
Uma das questões que tornam mais difícil a missão da Igreja é sua lentidão em ler os tempos. Foi uma advertência de Jesus, que soubéssemos ler os sinais dos tempos. Mas muitas vezes nós nos fechamos em nosso mundo de conceitos, queremos que o mundo nos leia, porém não lemos o mundo. Via de regra, nosso universo é fixista, com a mentalidade de que "Deus falou, tá falado e o mundo tem que ouvir". Que Deus falou e está falado, é óbvio e não se discute. Mas a forma como nos dirigimos ao mundo é que pesa um pouco. Necessitamos saber como o mundo pensa e qual é a sua perspectiva de vida, para poder comunicar o evangelho de modo eficiente.

Todos nós sabemos que as coisas mudaram e de modo muito rápido nos últimos anos. E esta é outra dificuldade nossa. Geralmente não vanguardeamos. Vamos a reboque das mudanças. As igrejas se prendem ao passado, à sua cultura, à sua visão. E muitas vezes se tornam irrelevantes. Quando pensamos que há igrejas, em pleno 2002, que ainda impedem o ingresso de pessoas calçando tênis, porque o lugar é santo, vemos como se torna difícil comunicar os valores verdadeiros do evangelho numa sociedade que se descarta de valores como troca de roupa. E como a Igreja corre risco de se tornar irrelevante. Aliás, aos olhos do mundo, muitas são, realmente. São um gueto onde se reúnem pessoas diferentes, mas que nenhuma diferença fazem para a vida das pessoas de fora.

As mudanças culturais e de comportamento vêm sendo promovidas pela mídia e nós vamos correndo atrás, queixando-nos e criticando o mundo. Em muitas igrejas temos apenas uma reprodução da vida de cinqüenta anos atrás. E reproduzimos uma cultura sem sentido para o tempo atual. A poetisa Anne Sexton expressou isso em dois versos: "Fincaram pregos nas suas mãos/Depois disto todo mundo passou a usar chapéu" . Cristo morre para transformar a humanidade e a Igreja, como conseqüência, adota regras de indumentária. Nesta poesia, o que ela quis expressar é que muitas coisas que fazemos nada têm a ver com o projeto de Cristo. São mera cultura que sacralizamos e que acabamos perpetuando.

Agrava a situação o fato de que muita gente que está a lidar na pregação do evangelho ao mundo não tem a menor noção do que seja o mundo ao seu redor. Ouviram conceitos que repetem sem refletir. Lêem livros, muitos deles ultrapassados, mas não lêem os sinais dos tempos. E não lêem uma das coisas mais importantes para se ler: gente.

Não é difícil de entender. O universo religioso é fixista, prende-se muito ao ontem. E não tem vontade de aprender. Na realidade, tem enorme relutância em aprender. Nós sabemos, o mundo não sabe. Nós estamos certos, o mundo está errado. Nosso contexto particular é pior, porque uma das características mais acentuadas dos batistas é seu exagerado amor às estruturas, que são passadas, fixistas e, na maior parte das vezes, gastam mais tempo para se perpetuar do que para viabilizar aquilo para que foram criadas. Gastamos mais tempo conosco mesmo do que preparando-nos para o exercício de nossa missão junto ao mundo. Somos pouquíssimos autocríticos e terrivelmente autodefensivos. As estruturas acabam se tornando um fim em si mesmas e aprisionando a idéia para a qual foram criadas. Há um excelente ensaio sobre isto em Anatomia do Poder , de Galbraith. As estruturas religiosas não são exceção. São regra. Muito do que fazemos, muito do nosso esforço, é para discutir temas já discutidos, em questões que não mudaremos, mas que discutimos até para dar a idéia de que queremos mudar. Fui para o Seminário com 19 anos e se falava de reestruturação denominacional. Tenho 30 anos de ministério, caminho para 31, e ainda discutimos reestruturação denominacional. O chapéu nos toma mais tempo que os pregos nas mãos dele.

Juntemos os dois aspectos. De um lado, o pregador ou líder cristão que muitas vezes se julga um produto acabado e perfeito e que por isso mesmo não reflete, não se atualiza e se esconde atrás de uma aura de suficiência. Do outro, acrescentando fardo à situação, o fato de que o pregador tem raízes e fundo batista.

Vivemos num mundo em mudanças drásticas. Dez anos atrás, insinuar a homossexualidade de alguém era uma ofensa inominável. Hoje, quem é heterossexual quase tem que pedir desculpas por isso. Os heróis das entrevistas nos órgãos escritos e nos programas de tevê são homossexuais. Uma revista de circulação nacional dedicou dois números seguidos ao homossexualismo. Um, diretamente. Outro, no bojo de uma reportagem sobre um cantor falecido por complicações decorrentes da AIDS. O tom era de desafio e de virtude. Fala-se do perigo de drogas, mas cantores que morrem por overdose de drogas são mostrados como heróis.

Isto não sucede apenas na área de conceitos, mas também na área de habilidades e do domínio de tecnologia. Muitos adolescentes, hoje, têm mais domínio de informática que a maior parte de seus pais e pastores. Têm acesso a um volume de informações muito maior que estes. Estão à sua frente. Este acesso a fontes de informação via Internet, da qual muitos adultos não dispõem e muitos jovens dispõem, nos coloca em desvantagem. Não é incomum um jovem ter mais dados e saber mais coisas (nem sempre essenciais à vida) que os adultos. Os adultos e as instituições mais complexas, mais rígidas, como a Igreja, estão em dificuldades para assimilar o que acontece. Estão ficando defasados porque nem sempre acompanham as mudanças.

Neste mundo em mudanças, o elemento plasmador de hábitos, a mais importante corrente geradora de cultura, presentemente, é a pós-modernidade. Ela molda o comportamento dos jovens. Na sua maioria, as novelas, os filmes, a cultura social, são padronizados por ela. É o nosso assunto. Não é modismo. Para muita gente desavisada, filosofia e ciências sociais são perda de tempo. Não são. A pós-modernidade se dissemina sub-repticiamente na nossa vida. Quem não a conhece é por seus conceitos enredado. Quem a conhece pode analisar o que sucede ao seu redor. Vamos ver se passamos a conhecê-la um pouco melhor.

Estamos vivendo um momento novo na história. Costuma-se dizer que a Idade Contemporânea começou em 1789, com a Revolução Francesa. Sociólogos, filósofos e antropólogos têm declarado que a Idade Contemporânea acabou e que entramos em uma nova Idade, a Pós-Moderna. Está acontecendo uma revolução enorme na maneira de ver o mundo, e isto tem muito a ver com a Igreja. Em 1789, o Iluminismo entronizou a Razão como deusa dos homens.

Entramos no período da razão, uma época racionalista e científica. Na Catedral de Notre Dame, símbolo maior do cristianismo, na França, uma estátua simbolizando a Deusa Razão foi instalada. O cristianismo foi mostrado como sendo apenas uma relíquia cultural. Nos anos sessentas e setentas, vimos, muitas vezes, ataques contundentes ao evangelho e à religião, em nome da ciência e da lógica. A religião era considerada como um absurdo. A razão humana era suficiente para explicar o mundo. Tomando o lugar de Deus no ideário humano, ela poderia nos ajudar a resolver todos os nossos problemas. Nós nos bastávamos. Esta auto-suficiência marcou a modernidade.

Mas em 1989 o mundo foi sacudido de maneira como poucas vezes o fora anteriormente. Caiu o muro de Berlim. Poucas pessoas entenderam que não era apenas um evento, mas uma nova era na história da humanidade. Foi o início do fim do comunismo, o início da agonia do materialismo dialético (embora ainda haja materialistas dialéticos e comunistas nas universidades do Brasil). Foi o fim do maior império mundial de todos os tempos. O mundo começou a mudar mais depressa, ainda. A deusa Razão estava morrendo. O materialismo dialético explicava o mundo e todos problemas humanos pela luta de classes e pela exploração do homem pelo homem. O comunismo pretendia ter a solução para estes problemas: o fim da propriedade privada e o fim da exploração do homem pelo homem. Todas as fases da sociedade, e não apenas a economia, seriam planejadas, tendo o homem como fim. Seria o clímax do uso da razão e da ciência. Toda a vida humana seria planejada. O fim do comunismo mostrou o equívoco de tentar se reduzir a vida humana a fórmulas, e acabou com a idéia de que se pode planejar toda a vida dos homens em todos os níveis. A ciência falhou, o materialismo dialético fracassou, o lugar de Deus nos corações e nas mentes dos homens não foi ocupado pela ideologia. A queda do muro de Berlim mostrou que em vez de potência, os países do bloco comunista eram países de quarto mundo, como a Albânia. Experimentei isto. Fui algumas vezes a Cuba para pregar e lecionar. Na primeira vez, fiquei quinze dias, regressei a Manaus, onde fiquei duas horas e fui para Coari, pregar num congresso de jovens. Coari fica no meio da floresta amazônica. Pesando o que vivi naqueles dias, disse para mim mesmo: "Prefiro Coari a Cuba". Aliás, em Cuba duas coisas funcionam admiravelmente: a propaganda ideológica e a repressão. Voltando à queda do Muro de Berlim: o homem falhou, mais uma vez. O que seria o clímax da razão acabou sendo uma decepção. A pós-modernidade, que já vinha sendo forjada, acabou se firmando de vez. Segundo Oden, um intelectual cristão, "a era moderna durou exatamente 200 anos – da queda da Bastilha em 1789 à queda do Muro de Berlim em 1989" . Partamos daqui.

1. PÓS-MODERNIDADE, MAIS UM MODISMO?
"É mais um rótulo", dirá alguém. Não é. É uma atitude cultural assumida por um grupo cada vez maior de pessoas, nas mais diversas áreas da vida humana. É uma mudança de hábitos que está a sepultar aqueles que conhecemos e praticamos. Um conjunto novo de valores na música, na literatura, na arte, nos filmes, nas novelas, no modo de vestir e no trato com as pessoas. Está aí e nós o vivenciamos. Tanto que há certo tipo de pregação evangélica que já se amoldou a ela, como comentaremos depois.

"Até agora não vi nada que justifique este assunto", dirá alguém desavisado.

Ora, não se prega o evangelho no vazio. Prega-se dentro de um contexto. O nosso contexto é mudancista e é moldado pela pós-modernidade. Como é o mundo para o qual pregamos? Como as pessoas pensam? Pastoreei por 9 anos em Brasília, uma cultura típica, não encontrada no resto do País. Brasília, principalmente no Plano Piloto, é uma ilha da fantasia. Mudei-me para a Amazônia, onde trabalhei por 7 anos. O contexto era completamente diferente.

Somente no meu terceiro mês em Manaus é que começaram a acontecer decisões. Batizei 280 pessoas e organizei duas novas igrejas, em cinco anos. Mas precisei entender a mente do amazonense, para saber como é que deveria pregar para eles. É preciso conhecer para quem pregamos. Ajuda-nos a entender isto a palavra de Paulo em 1Coríntios 9.22: "Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns". Ele buscava conhecer as pessoas. Quando chegou a Atenas, na Grécia, a terra da Filosofia, não começou a pregar por Moisés, mas pelo nível dos atenienses, a Filosofia. E o seu sermão, apesar da falta de compreensão de alguns comentaristas que dizem ter sido improdutivo, é uma peça de adequação ao momento e à cultura. E não foi improdutivo. Houve conversões, inclusive a do administrador do Areópago, Dionísio. Seria, mais ou menos, como se o Reitor de uma universidade se convertesse.

Agora, na Igreja do Cambuí, tenho outro tipo de pessoas com quem trabalhar. É um bairro rico, de classe média alta. Os freqüentadores são, em sua maioria, pessoas com formação superior, profissionais liberais, empresários, professores universitários, bem como os jovens estão quase todos na universidade. O sistema de trabalho tem que ser completamente diferente, mas também a mente das pessoas é diferente. Além desta questão, Campinas é uma transição entre o interior de S. Paulo, conservador, e a Capital, caldeirão cultural, cheia de mudanças. Não precise reaprender muito porque sou um típico paulista do interior. Mas precisei me readaptar.

Anos atrás, quando eu era diretor da Faculdade Teológica Batista de Brasília, um preletor especialista em evangelização urbana foi falar em nossa capela.

Começou perguntando quantos semestres estudávamos de Grego, de Hebraico, de Pregação, etc. Depois perguntou: "E quantos semestres de Brasília vocês estudam?". Aquilo me deu um clique. Não estudávamos nossa cidade, uma cidade singular, distinta das demais, a cidade onde estávamos a trabalhar! No entanto, não estou falando de conhecer apenas o lugar onde as pessoas estão, mas a mente das pessoas.

Disse o pensador Gastaldi que "educar sem conhecer o homem é como caminhar no deserto sem bússola e sem meta" . É preciso saber quem é a pessoa que se educa. Podemos parafrasear esta declaração. Pregar sem conhecer para quem se prega é caminhar no deserto sem bússola e sem meta. É preciso saber como é a pessoa para quem pregamos. Muitos pregadores têm uma mensagem que serve para qualquer lugar. Estudam a Bíblia, mas não estudam gente.

Para não me delongar mais nesta parte introdutória, faço um breve resumo: estamos vivendo uma nova fase no pensamento da humanidade. Na realidade, é uma revolução cultural que vem se processando, e que afeta todos os níveis da nossa vida. As coisas estão mudando com muita rapidez e muitos de nós não as enxergamos. Nossa visão é micro, centrando-se em pequenos detalhes, quando precisa ser macro, vendo o global, o causador. O que está acontecendo ao mundo?

2. O QUE É PÓS-MODERNIDADE?
Baseando-me numa definição de Grenz e simplificando-a para maior compreensão, digo que a pós-modernidade é uma atitude intelectual que se expressa numa série de expressões culturais que negam os ideais, princípios e valores que constituem o suporte da cultura ocidental moderna. É uma época que está emergindo, substituindo aquela em que estamos inseridos, moldando cada vez mais nossa sociedade. É uma rejeição dos valores em que nós, ministros, fomos criados, valores esses que moldam nossa vida e se constituem no pano de fundo de nossa visão do mundo. Ferreira dos Santos assim a definiu, chamando-a de pós-modernismo: "pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900-1950)" . A data e o local de nascimento da pós-modernidade são apontados diversamente por autores. Depende muito de como cada um deles encara um determinado aspecto, vendo-o como o principal. Mas falaremos sobre isto, mais à frente. Fiquemos com uma frase da definição, que é o que nos interessa: pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas.

Está, realmente, acontecendo uma revolução no mundo. Nosso mundo cultural está passando por uma revolução extraordinária. Um pequeno exemplo: no universo cultural da minha Igreja, é cada vez mais comum encontrarmos pessoas que estão juntas há dez, doze anos. Elas não querem casar, mas vivem como casadas e vivem melhor que muita gente casada. Não estou endossando esta atitude. Estou dizendo que ela é comum. Vivi três casos deste, em um ano. E eram as mulheres, nos três casos, que não queriam casar. Muitos ainda não se deram conta disso, desta mudança de hábitos e de visão. Estas coisas estão acontecendo.

E o curioso é que apesar do alarido da mídia, esta mudança, na sociedade, vem de forma silenciosa. Ela não vem por armas, mas em nível de conceitos. A batalha está sendo travada aqui. Valores educacionais, sociais, políticos, morais e religiosos estão sendo contestados e outros estão sendo propostos para seu lugar. Neste sentido, um dos livros mais extraordinários para um pregador do evangelho é o de Capra , em que faz ele uma análise da nossa cultura contemporânea, que é newtoniana e cartesiana, mostra suas falhas, aonde ela nos trouxe, e apresenta uma nova ciência que ele chama de holística. Sua tese é esta: a cultura ocidental contemporânea está num beco sem saída. Junto com o progresso nos trouxe uma série de desmandos. Precisa ser revista e não pode ignorar os desafios que lhe faz a cultura oriental, que, inclusive, pela sua ênfase no homem e não na técnica, precisa ser revalorizada. Ele propõe uma nova cosmovisão.

Podemos dizer que a pós-modernidade são os estertores de uma cultura agonizante. E, ao mesmo tempo, o parto de uma cultura nova. Sua proposta é rever todo o nosso sistema de vida. A linha de Capra, ideólogo do movimento chamado de nova era, segue nesta direção. Creio que isso mostra que precisamos mesmo analisar seriamente a cultura em que vivemos, tanto que está passando como a que está chegando. O ideário de Capra é interessante, mas aceitá-lo trará mais malefícios que benefícios. Precisamos refletir seriamente sobre nossos conceitos, isso sim.

3. UMA VISÃO GLOBAL DE NOSSO CONTEXTO
Do que foi dito até agora, sabemos que estamos em transição, da modernidade para a pós-modernidade. Conheçamos um pouco da modernidade, que é o nosso contexto em que ainda vivemos. Como surgiu ela? Perguntará alguém: "Se a modernidade está cedendo lugar à pós-modernidade, por que gastar tempo com ela?".

Primeiro, porque é o ambiente em que fomos educados. Segundo, porque é a nossa visão. Terceiro, porque a pós-modernidade é uma reação a ela e se conhece bem a reação quando se conhece a ação.

A modernidade, a época cultural em que estamos inseridos, é produto de quatro revoluções, segundo Gastaldi . Parece-me muito correta a sua análise. São as revoluções científica, política, cultural e a técnica. Podem ser fundidas na análise, comentando juntas a científico e a técnica.

A revolução científico-técnica alterou, mais que todas, a imagem do homem. O homem primitivo sacralizava a natureza (como a umbanda ainda faz). Os fenômenos cósmicos e geológicos, como chuva, seca, eclipse, terremoto, eram produto da alegria ou da zanga dos deuses. O homem daquela época era um homem fatalista. Guilherme de Ockham (c. de 1350) foi quem criou grande desconfiança em relação às verdades de seu tempo e acendeu o estopim para o deslanche do conhecimento humano.

O Renascimento redescobriu as culturas grega e romana e deu ao mundo ocidental as condições de valorização do homem, tornando-o o centro do cosmos. Galileu Galilei (c. de 1540) ampliou a questão. A Igreja, detentora do poder e do saber, começou a ser questionada e a capacidade humana começou a ser reafirmada. Era o cansaço com o fatalismo medieval. Kilpatrick nos conta que ele desafiou o conhecimento anterior, firmemente estabelecido, ao negar que duas bolas de peso diferente cairiam em velocidades diferentes . Segundo ele, cairiam juntas, ao mesmo tempo. Parece uma questão banal, aparentemente irrelevante. Mas, segundo Whitehead, "desde o nascimento de Cristo, jamais tão grande coisa produziu tão pequeno ruído" . Mas era conhecimento assumido e estabelecido como verdade. Subindo ao alto da Torre de Pisa, ele lançou duas bolas de pesos diferentes e elas caíram juntas. Banal, não é? Mas a atitude de Galileu é tida como o início do pensamento científico: don’t tell me; show me ("não me fale, mostre-me"). Não é que o se diz, mas o que se pode provar.

Antigamente, o que estava sendo dito não era questionado. Ele questionou o saber constituído e criou a cultura moderna, a cultura em que a verdade não é questão de autoridade, mas de comprovação. Nasce com esta atitude de Galileu o homem moderno, que pode ser mostrado assim: não é o que a Igreja diz, o que Aristóteles (cuja autoridade era indiscutível) diz, mas o que se pode provar. Para se entender isto, leve-se em conta um trecho de livro de Umberto Eco, com as palavras do Pe. Emanuele, numa criação do autor, mostrando o choque entre a Igreja e Galileu:

Já deves ter ouvido falar daquele Astrônomo florentino que para explicar o Universo usou o telescópio, hypérbole dos olhos, e com o telescópio viu aquilo que os olhos somente imaginavam. Tenho em alta conta os Instrumentos Mechanicos usados para entender, como se costuma dizer hoje, a Cousa Extensa. Mas, pra entender a Cousa Pensante ou a nossa maneira de conhecer o Mundo, não podemos senão usar outro telescópio, o mesmo já utilizado por Aristóteles, e que não é tubo nem lente, mas Trama de Palavras, Idéia Perspicaz, porque é apenas o dom da Artificiosa Eloqüência, que nos permite entender este Universo.

O homem pré-moderno tinha sua mente condicionada pelo peso da autoridade.

Um exemplo: quando Galileu disse que o Sol tinha manchas, isto causou uma grande celeuma. O Sol não podia ter manchas. Era o astro-rei, um símbolo de Cristo. Um padre, escrevendo a outro, comentou: "Não se preocupe, isto não é verdade. Li Aristóteles todo, por três vezes, ele não faz referências alguma a manchas no Sol". O mundo pré-moderno era o mundo dominado pelo obscurantismo. Não se podia pensar, mas apenas repetir o que já fora dito. O homem moderno crê no que se pode provar, não no que se alega. Esta é a nossa cultura, a das provas, a das evidências. Esta é a revolução científica: crer no que se pode provar. Mais uma vez, citando Kilpatrick:

Se o mundo moderno possui alguma superioridade, não é graças ao poder da dialética, mas sim ao princípio que Galileu introduziu ao demonstrar que o pensamento, para ser aceitável, precisa ser comprovado em suas conseqüências práticas .

A ciência pede provas. A autoridade como ponto final de argumentação foi sepultada. Isto foi um golpe profundo para a religião. É por isto que o neopentecostalismo e o baixo-pentecostalismo, creio que intuitivamente, apelam para o experiencialismo. Dá peso de autoridade acima do "está escrito". Mas voltando à mudança cultural, a Ciência deixou de ser subordinada à Filosofia e ficou subordinada à Matemática e à Física. Tornou-se precisa e não mais especulativa, e ficou autônoma da Igreja. Para se ter uma idéia do que isto significou, basta que nos lembremos do filme "O Nome da Rosa", da obra do mesmo nome de Humberto Eco. O discurso do bibliotecário Jorge, após se desencadear o processo de inquisição no convento, é bem esclarecedor: a função daquele convento é reproduzir a cultura existente e não pesquisar, para descobrir coisas novas. A crítica contra William de Baskerville, muito bem interpretado por Sean Connery, é pela sua incapacidade de aceitar a autoridade do inquisidor, estando este errado. William está certo, mas deve ceder diante da autoridade do inquisidor. A autoridade triunfa sobre a verdade, é o ensino do episódio. Esta foi a cultura pré-científica, pré-iluminista e pré-Galileu. Infelizmente é a cultura de muita gente, ainda hoje. Imaginem pregar com a cultura pré-moderna para a mente pós-moderna.

A revolução industrial mudou os hábitos humanos para sempre. A máquina começou a substituir o homem. A produção deixou de ser em nível de subsistência para se tornar em objeto de consumo. Surgiram, em conseqüência, o capitalismo e a burguesia. O feudalismo começou a declinar. O lucro se tornou o alvo maior da vida. A propriedade privada surgiu como um apanágio, substituindo o conceito de que o Estado e a Igreja eram os senhores tanto da terra como da vidas das pessoas. O quantitativo, o mensurável, e o que pode ser expresso em linguagem matemática tornaram-se o fundamental no trabalho e até mesmo na vida. O conhecimento tornou-se pragmático, ou seja, em termos de utilidade. Até mesmo as pesquisas científicas são medidas em termo de lucro. A pergunta não é mais a do saber descompromissado, "o que é?", mas sim a do saber utilitário "para que serve?" ou sua variante, " quanto rende?".

A tecnologia voltou-se para a microeletrônica e a corrida se tornou necessária para superar os adversários. A robotização elimina empregos e o mercado mundial se tornou dominado por grandes conglomerados econômicos.

A revolução cultural foi gerada pelo Iluminismo, que Kant definiu como "a maturidade da humanidade". A razão humana era a nossa faculdade mais importante. O Iluminismo surgiu, como diz Valle, "em torno da idéia de progresso da humanidade através do uso da razão, ou mais exatamente, da razão empírico-analítica" . Ou seja, como produto do pensamento de Galileu e de Newton. E produziu o "século das luzes". É preciso falar um pouco do Iluminismo. Vamos defini-lo:

Foi um movimento político, cultural e filosófico. Autores iluministas, como Voltaire, Diderot, Rousseau e Montesquieu defendiam a lógica e o raciocínio como base do conhecimento da natureza, do progresso e da compreensão entre os homens… A ciência ocupava-se em desvendar os mistérios do mundo. Aplicando-se o raciocínio e à lógica, qualquer desses mistérios acabava por vir à luz. Veio daí a denominação Século das Luzes, como ficou conhecido esse período.

Sua crença, que hoje se reconhece como ingênua, era de que o conhecimento é exato, objetivo e intrinsecamente bom. O progresso era inevitável e a ciência, aliada à educação, nos traria o milênio. O progresso humano traria a redenção da humanidade. Victor Hugo assim o metaforizou:

O homem pode dizer sem mentira: reconquisto o Éden e termino a Torre de Babel. Nada existe sem mim. A natureza não faz mais que ensaiar e eu termino a obra. Terra: eu sou teu rei.

O Renascimento descobriu valores culturais e o Iluminismo os divulgou. O homem foi posto como centro do mundo. Passou a se crer na bondade inerente do homem. O progresso estava se alastrando, e a educação e a ciência se tornaram mais comuns e então se entende esta visão romântica. Estávamos caminhando para o paraíso terreno. Mas o mais grave de tudo é que o Iluminismo e o newtonianismo criaram uma visão mecanicista do mundo. Este passou a ser visto como um relógio, explicado pela Matemática. Em outras palavras, as leis do universo podiam ser observadas e entendidas. O mundo podia ser compreendido e matematizado, explicado pela Matemática, por leis fixas e imutáveis. Nesta interpretação cultural, Deus se tornou o Grande Relojoeiro que deu corda ao mundo e se ausentou. Mais tarde, o Relojoeiro passou a ser desnecessário. O relógio podia ser bem administrado pelos seus usuários e ele mesmo passou a ser explicado como um acaso, produto das leis naturais.

Como conseqüência, o saber se tornou fragmentado, surgindo a especialização. A Medicina é o maior exemplo. O clínico geral vai cedendo cada vez mais espaço para o oftalmologista, o pneumatologista, o ortopedista que cuida do pé direito e o ortopedista que cuida do pé esquerdo. Na área social também sucedeu algo semelhante: ter uma visão global do mundo se tornou cada vez mais difícil. Com isso, o mundo se tornou mais complexo e ininteligível, em seu aspecto não físico. Mas conferiu uma aura de especialista infalível ao homem das ciências. O homem de ciências, o médico, por exemplo, passa a fazer afirmações teológicas, sem qualquer lastro filosófico. Antigamente o homem vestido de preto, o sacerdote, era respeitado por deter o poder. Hoje é o homem de branco. Ele sabe e os outros não sabem. As coisas se tornam mais complexas na sua linguagem, para lhe dar uma aura de confiabilidade. Não é "dor de cabeça". É "cefaléia". A Teologia e o saber filosófico se tornaram irrelevantes, cedendo lugar para a técnica e passamos a ter um mundo cada vez mais sem alma e sem sensibilidade. Curiosamente, hoje, os maiores desafios à visão de Newton vêm da própria Física. Capra, por exemplo, é um físico e propõe uma volta aos valores do espírito.

Mas, tentando resumir este ponto, posso dizer que a modernidade, a época em que fomos criados, compreende o processo de secularização da cultura ocidental (a cultura oriental está engessada há séculos). A pós-modernidade é o abandono da própria cultura. O que vale é o agora. O traço mais forte da modernidade era a crença de que o mundo e o homem poderiam ser explicados pela razão. A pós-modernidade tem como traço mais forte o desinteresse em explicar tanto o homem como o mundo. Viva a vida!

4. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DE NOSSA ÉPOCA
Nossa época, aquela em fomos criados e que está passando, é produto de uma série de acontecimentos históricos que se conjugaram e a produziram. Quais as conseqüências disso?

A revolução industrial, embora trazendo benefícios incalculáveis, como a popularização de bens de consumo, trouxe alguns problemas muito sérios que nos afetam. Entre eles podemos citar:

  1. O lucro como motor essencial do progresso – Há aspectos positivos aqui, mas os que são negativos avultam. O valor de qualquer bem, investimento ou produto é medido pelo lucro. Isso desumanizou nossa época. As pessoas não são o valor último. Veja-se o caso dos planos de saúde, que cobram taxas elevadas, mas enchem os contratos de cláusulas-armadilhas que ludibriam o consumidor. Se o que o cliente precisa trouxer prejuízo para a empresa de saúde, ele vai ficar na mão. A Ciência mesma ficou presa do lucro, muitas vezes. Disse-me um amigo, professor em universidades de Odontologia, inclusive do Exterior, em uma conversa sobre vacina contra a cárie, que esta não seria interessante, do ponto de vista econômico. Que, se viesse a ser descoberta, seria mais interessante que fosse descartada. Vinte anos atrás, outro amigo, profissional da área petrolífera, comentou que já havia um substituto para o petróleo, em forma de pastilha que se dissolveria em um recipiente, produzindo um gás que funcionaria como combustível, mas que fora engavetado o projeto. O que aconteceria com as companhias petrolíferas, com os milhões em ações, com os países produtores de petróleo e que vivem apenas de sua venda? O que aconteceria no Oriente Médio, que já é um caldeirão turbulento?
  2. A concorrência passou a ser a lei suprema da economia – Isto é bom, por um lado, porque estabelece o domínio da competência. Mas trouxe problemas também. Uma espécie de canibalismo econômico se estabeleceu nas relações empresariais. A cooperação visando o bem comum da humanidade é uma utopia. O homem não é mais a finalidade da ciência ou da economia. É apenas um consumidor. O valor das pessoas está na sua capacidade de produção e na possibilidade do seu consumo. Ninguém ajuda ninguém. Prevalece a lei das selvas. A dignidade intrínseca do ser humano tem sido esquecida.
  3. A propriedade privada é um direito absoluto – No contexto surgido, foi uma grande novidade. As terras e os bens não eram apenas da Igreja ou dos nobres. Poderiam ser compradas e não poderiam ser tomadas, sem mais nem menos, por estes dois. Seu domínio deixou de ser natural e passou a ser legal. Mas muitos dos explorados tornaram-se exploradores. Assim é que o latifúndio da nobreza e da Igreja se tornou um latifúndio da nova classe burguesa que surgiu. Quem tem dinheiro consegue fazer mais dinheiro. "Dinheiro chama dinheiro" se tornou uma frase comum no cenário capitalista. Quem não tem, infelizmente, aplica-se a ele, sem fazer exegese bíblica, as palavras de Jesus, "até o que tem lhe será tirado". O resultado é que há hoje mais exploradores que no passado.
  4. O quantificável se tornou o mais importante em nossa cultura. O que se mede tem valor. O que não se pode quantificar passou a ser irrelevante. Valores sérios do passado, valores espirituais e morais, perderam o significado. A mentalidade pragmática e utilitarista tomou foros de padrão. Vivemos sob o signo da eficácia, do lucro e da quantificação. Quanto você desconta para INSS? E quanto receberá ao se aposentar? Velho não é produtivo. É tolerado, portanto. O valor do ser humano reside em sua força de trabalho, em sua capacidade de produzir para as forças dominantes, sejam as empresas, seja o Estado, sejam as igrejas (igreja não quer pastor velho).
  5. Filosofia, arte, poesia, literatura, essas coisas não têm valor em nosso tempo. Não se come flor. O que tem valor é a informática, a técnica. Essa desvalorização do humano em detrimento das idéias e das técnicas se vê na história recente do Brasil, palco de experiências econômicas desastradas feitas por técnicos da área. Sem exceção, em todos os planos econômicos dos governos recentes, o Estado ganhou e o povo perdeu.
    Encerrando este tópico, pode-se dizer que a revolução industrial, de tantos benefícios, desumanizou a sociedade. Coisificou o homem. E idolatrou a máquina. Uma frase do pensador austríaco, Karl Kraus, cabe bem aqui: "As máquinas estão se tornando cada vez mais complicadas e os cérebros cada vez mais primitivos" . Mais poder e mais valor às máquinas e menos valor ao humano.


A revolução cultural trouxe, como reflexo mais profundo em nosso contexto, o processo de secularização. Isto merece consideração especial de nossa parte porque nos afeta diretamente. Foi o golpe mais duro desferido ao campo religioso, pois baniu a religião para um canto, tirando-a da vida real. As afirmações teológicas não podem ser verificadas, pertencem ao domínio da opinião e não ao da prova. Tudo passou a ser explicado cientificamente e ficamos sem espaço para conceitos religiosos. Orar para chover? Mas a chuva vem como conseqüência de causas naturais e não de oração!

Em conseqüência, a Igreja deixou de ser uma instituição detentora de poder e se tornou um recanto de vivência pessoal. A religião passou a ser intimizada, vivida em nível de sensações e sentimentos, e não mais vivida em nível de história, de fazer acontecer. E um dos problemas mais sérios da intimização da fé é a diminuição da ética, tanto a de aspecto moral quanto a de aspecto social. A religião perde sua objetividade e se torna matéria de sentimentos. Esta perda da ética é lamentável. Todos sabemos que os bastidores da religião institucionalizada não são flor que se cheire.

Outra questão a considerar: a secularização minimizou e ridicularizou a religiosidade, mas não a baniu da vida humana. Dotado de uma centelha espiritual, criado à imagem e semelhança de Deus, o homem sentiu falta do sagrado. Assim, a religiosidade se vingou da secularização, retornando, até mesmo de maneira agressiva, em forma de superstições grosseiras como cristais, pirâmides, gnomos, numerologia, florais de Bach, etc. São duas conseqüências danosas para a fé crista. De um lado, sua contestação veemente, porque a fé cristã pretende ser uma cosmovisão (e só pode ser vista como uma cosmovisão) e no secularismo não há espaço para tal. De outro, um avanço extraordinário do paganismo passado, retornando com o aval da ciência, que não pode tolerar uma cosmovisão. A fé cristã se vê acuada entre dois inimigos. Um, que a declara retrógrada. Outro, retrógrado, que busca se impor sobre ela com foros de antigüidade, de milenaridade, de sabedoria dos ancestrais, como se a fé cristã tivesse nascido ontem.

Uma grave conseqüência em tudo isto é que o individualismo tomou corpo e afastou as pessoas das preocupações sociais. Isso se vê até no ambiente evangélico. Os anos sessentas foram anos de discussões sobre a ação social das igrejas. Havia uma preocupação enorme com a pobreza e com a política. A ênfase dominante hoje é dada pela teologia da prosperidade. As pessoas estão preocupadas com cura, saúde, riqueza, resolução dos seus problemas e pouco com a transformação do mundo. Para se trabalhar com os jovens é preciso ter isto em mente. Os cinqüentões podem, sem maldade, mas objetivamente, fazer uma comparação entre a mocidade de sua época e a de hoje. No passado havia preocupação social. Minha geração foi às ruas protestar contra o regime militar, apanhou do Exército nas ruas, tinha vontade de transformar o mundo, enamorou-se do comunismo porque via nexo no que ele dizia (embora nunca concretizasse o que dizia). O comunismo foi a grande e a maior frustração da geração pós-moderna. Em vez de criar riqueza, criou miséria. Em vez de trazer liberdade, criou um dos sistemas mais repressivos que a humanidade conheceu. Só mesmo a cegueira ideológica para não reconhecer isto. Como conseqüência, a geração de hoje é sem ideais, é a chamada geração shopping, cuja preocupação é o consumo, o tênis da moda, a camisa da grife badalada e a freqüência às lanchonetes de nomes americanos para a famosa sucata alimentar: sanduíche e refrigerante. É uma geração pragmática, de resultados, e não idealista. Que pensa localmente em vez de globalmente. Uma geração economicamente rica, com mais bens e posses que a minha, mas de conteúdo muito pobre. Uma geração obesa de corpo, pelos excessos alimentares, e esquelética de conteúdo, pela falta de sentido. Fútil mesmo. Porque, quando se perdem os ideais, a vida se empobrece. Uma Xuxa, uma Adriana Galisteu e aquele gordinho que tem um programa tolíssimo, com boliche humano e galalaus brincando com carrinhos de brinquedo, nunca emplacariam nos anos sessentas.

Em termos de culto, de vida na igreja, podemos dizer o seguinte: as pessoas irão por um mês a uma corrente de cultos para receberem riquezas, mas não terão ânimo para uma vigília de oração para conversão dos perdidos. A própria igreja evangélica se tornou pós-moderna. Ela se preocupa consigo mesma e não com o mundo perdido.