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Tribalistas
Composição: Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte

Os tribalistas já não querem ter razão
Não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião

Os tribalistas já não entram em questão
Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão
Chegou o tribalismo no pilar da construção

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé

Os tribalistas saudosistas do futuro
Abusam do colírio e dos óculos escuros

São turistas, assim como você e o seu vizinho
Dentro da placenta do planeta azulzinho

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé

Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé
Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

O tribalismo é um anti-movimento
Que vai se desintegrar no próximo momento

O tribalismo pode ser e deve ser o que você quiser
Não tem que fazer nada, basta ser o que se é
Chegou o tribalismo, mão no teto e chão no pé

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba


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por Leandro Antonio de Lima

Um dos conceitos mais explícitos da Escritura que jamais poderia se encaixar com a mentalidade iluminista é o seu caráter indisfarçadamente paradoxal. Literalmente, paradoxo é aquilo que contraria a “doxa”, que pode ser traduzido como “louvor”, sendo, portanto, “aquilo que está certo e deve ser louvado”. Assim, a ortodoxia pretende ser aquilo que é correto, estritamente falando. Paradoxo é algo que destoa, ou seja, algo que não se encaixa perfeitamente e compreensivelmente dentro do conceito de “orto”. De certo modo, é uma contradição, mas não uma contradição clara, absoluta e absurda, e sim uma contradição porque diz respeito a coisas que não podem ser medidas com a “orto”. Diz respeito a algo que extrapola as medidas comuns, algo que está além delas.

A Bíblia é um livro que assume o paradoxo sem tentar explicá-lo. A Bíblia é um livro de histórias e tradições antigas. É composta de narrativas históricas, canções, provérbios, poemas e de correspondências entre cristãos primitivos que fazem alusão a situações específicas de suas próprias épocas. É um livro cheio de sentimentos e deve ser lido, vivenciado, interiorizado, aplicado, mas não sistematizado rigorozamente ao estilo dogmático do iluminismo e sua fixação pela verdade científica. O tipo de sistematização racionalista do iluminismo atenta contra a própria constituição da Bíblia e, por fim, só pode resultar em violência a ela própria. A Bíblia é um livro riquíssimo. Ela é a Palavra de Deus para o ser humano. Uma palavra extremamente coerente com as próprias necessidades do ser humano. A Bíblia, por exemplo, sustenta verdades paradoxais. A vida é paradoxal. O mundo é paradoxal. Nós somos paradoxais. A Bíblia nos ajuda a viver cada momento de cada vez, de acordo com nossa própria estrutura. Lendo a Palavra, é possível encontrar respostas diferentes para situações diferentes, respostas que bem podem ser contraditórias, se o objetivo fosse enquadrar a Bíblia dentro das categorias racionalistas da lógica aristotélica.

Um exemplo pode ajudar, e agora se entra novamente no mundo da teologia: a Bíblia sustenta igualmente a soberania de Deus e a liberdade humana. Ambas as concepções podem ser encontradas na Bíblia. Há textos que falam sobre os decretos de Deus, sobre a predestinação e sobre o absoluto controle que Deus exerce sobre o mundo e sobre suas criaturas por meio da providência, mas também há textos que falam que o ser humano é livre para fazer suas próprias escolhas e que é o único responsável por elas. Quem lê só os primeiros textos, diz que seu Deus sabe todas as coisas, nunca é surpreendido por coisa alguma, nunca muda de opinião e mantém tudo sob seu mais estrito e absoluto controle, e, às vezes, por isso, essa pessoa assume uma concepção teológica que poderia ser chamada de hipercalvinismo. Quem lê apenas os últimos textos percebe que, às vezes, esse Deus parece se arrepender, mudar de opinião, agir de um modo que ele próprio havia dito que não agiria e parece um tanto quanto surpreendido com atitudes do ser humano. Então, essa pessoa advoga uma posição conhecida como arminianismo. Quem está com a razão? Qual teologia está mais correta? Qual é a melhor “descrição de Deus”? As duas se baseiam em textos bíblicos, mas apenas nos textos que sustentam sua própria visão. Ambas estão erradas justamente porque querem forçar um padrão que simplesmente não há no texto bíblico. Ambas querem eliminar as exceções e fixar um modo estrito de Deus agir. Isso é iluminismo. O curioso é que a Bíblia narra que, ao mesmo tempo, Deus é soberano e o homem é livre e responsável, e faz isso num mesmo texto, e várias vezes, sem tentar harmonizar ou dar maiores explicações (Veja Fp 2.12-13; Lc 22.22; At 2.22-23).

A Confissão de Fé de Westminster captou isso perfeitamente. Uma leitura atenta do texto da confissão mostra que algumas palavras frequentemente aparecem. São elas: “mas”, “porém”, “contudo”, “todavia”, etc. Essas palavras são conjunções adversativas. Por que há tantas conjunções adversativas na Confissão de Fé? A resposta é que os teólogos puritanos de Westminster não quiseram eliminar o paradoxo. Veja um dos textos mais conhecidos da confissão:

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (III,1).

É impressionante como os teólogos de Westminster entenderam o paradoxo bíblico e não o quiseram eliminar. Isso prova que eles não foram racionalistas. Um racionalista nunca poderia sustentar as duas afirmações acima ligadas pela palavra “porém”. Um racionalista só poderia dizer que, ou Deus decretou tudo ou o homem é livre.

O paradoxo não diz respeito apenas às doutrinas da soberania de Deus e da responsabilidade humana. Deus é um ser paradoxal e isso pode ser visto em toda a Bíblia. Ele é transcendente e imanente. Tem propósitos eternos e ação temporal. É justo e amoroso. Quase sempre a sustentação dessas virtudes, principalmente como elas são descritas na Bíblia, só poderia ser considerada contraditória pela mente enciclopédica iluminista. O próprio conceito mais equilibrado sobre a inspiração atesta que a Bíblia é palavra de Deus e palavra do homem. O que é isso senão um grande paradoxo? Jesus Cristo é totalmente Deus e totalmente homem. É o logos eterno que se encarnou. É o imortal que morreu na cruz. Esse é o supremo paradoxo da Bíblia. Nenhuma descrição poderia ser mais incompreensível para uma mente puramente racional do que essa. O homem descrito pela Bíblia também é um ser paradoxal. Ele é mortal, mas tem uma alma imortal. É bom, mas é mau, pois é feito à imagem de Deus, mas é totalmente depravado em virtude do pecado. Certamente, essas descrições estão mais para a pós-modernidade do que para a modernidade.

O que se pretende dizer com isso é que o conceito de verdade sustentado pela Bíblia não tem a ver com o conceito proposicional do iluminismo. O conceito de verdade apresentado pelo Novo Testamento nada tem a ver com o conceito racionalista de algo que pode ser testado objetivamente por ferramentas cartesianas ou aristotélicas. Verdade, conforme o Novo Testamento, “não é algo abstrato nem puramente objetivo; é pessoal” (McGrath, 2007, pág. 149). A verdade chama as pessoas para um relacionamento, para um pacto. Conhecer a verdade, portanto, é muito mais do que assentir intelectualmente para algo, ou chegar à conclusão de que aquilo passou nos testes de averiguação, e sim experimentar no interior uma certeza confirmada pelo Espírito Santo que faz sentido tanto para o intelecto quanto para o coração. Grenz diz: “Não devemos deixar de reconhecer a importância fundamental do discurso racional, porém, nossa compreensão da fé não deve se limitar à abordagem proposicional que nada mais vê na fé cristã a não ser a correção da doutrina ou a verdade doutrinária” (1997, pág. 246).

Resumindo: cremos na Bíblia não necessariamente porque ela é uma fonte de verdade proposicional e objetiva, nem porque pode ser testada por critérios científicos, mas porque expressa a verdade conforme podia ser percebida nas mais variadas épocas em que foi escrita, e acima de tudo porque faz sentido para nosso ser integral, debaixo da influência do Espírito Santo. É nossa convicção que o trabalho conservador de análise da Bíblia tem feito um trabalho suficientemente frutífero no sentido de rebater as críticas iluministas e liberais à Bíblia, mas não é nossa convicção que este trabalho é suficiente para provar a verdade da Bíblia. Isso é uma tarefa do Espírito, como defendia Calvino. Trabalhar alinhado com o Espírito não é utilizar argumentos do racionalismo para justificar práticas eclesiásticas e, ou, gostos pessoais, mas esforçar-se para que essa mesma Bíblia seja compreendida pelas pessoas de hoje e faça sentido. Caso contrário, não haveria se quer a necessidade de pregação. É a própria Bíblia que enfatiza a importância da pregação, justamente porque ela é a ferramenta que faz com que a Bíblia possa ser entendida, admirada e vivenciada em cada estágio da humanidade. Senão, bastaria apenas lê-la.

Fonte:http://novocalvinismo.blogspot.com/

por Leandro Antonio de Lima

À luz dos estudos anteriores, ficamos com uma pergunta difícil para responder: Como é possível conceber esse caráter historicamente condicionado das Escrituras? A seguinte pergunta de Guthrie parece sincera e importante, embora o referido autor, às vezes, pareça interessado demais em uma flexibilidade exagerada do conceito de revelação bíblica:

Como podemos nós discernir a palavra e a obra de Deus no nosso tempo, em um livro escrito pelas e para as pessoas do antigo Oriente Próximo, as quais tinham uma concepção predominantemente hierárquica e patriarcal a respeito de Deus e da sociedade humana, testemunhavam sua fé com uma visão de mundo pré-científica, e nem mesmo sonhavam com todos os complexos problemas que temos de encarar em nossa sociedade tecnológica moderna? (2000, pág. 59).

Na verdade, podemos ir além e perguntar como será possível fazer uma distinção entre os aspectos da Palavra de Deus que são normativos para todas as épocas e aqueles aspectos que foram exclusivos para as pessoas daquela época? Não há a pretensão de responder plenamente a essa pergunta neste trabalho. Entretanto, essa pergunta precisa ser respondida e a resposta a ela pode ser o caminho para sustentar a Bíblia como Revelação de Deus para o mundo que pretende ser pós-moderno. É isso o que se chama de reconstruir os fundamentos. Na verdade, os teólogos têm feito isso o tempo todo, principalmente quando interpretam que questões relativas a usos e costumes não devem mais ser observadas hoje, porque faziam parte de uma cultura que não existe mais. Haveria mais coisas na Bíblia a se encaixar nessa categoria?

Algo que parece certo é que a verdade precisa necessariamente sobreviver ao mundo pós-moderno. O desconstrucionismo levado às últimas consequências não pode realmente ser levado a sério. A verdade tem de aparecer de algum modo, ou então, os estudos, em quaisquer níveis, serão infundados. Por isso, há base para continuar sustentando uma revelação divina para o mundo pós-moderno. Porém, é preciso eliminar a tendência de considerar a Bíblia apenas como uma fonte de doutrinas cristãs, algo como uma mina onde a Teologia Sistemática vai buscar seus recursos. Algo que precisa ser redescoberto é o caráter narrativo da Escritura. Assim, as narrativas, muitas vezes estranhas do Antigo Testamento, que descrevem o povo de Deus invadindo cidades e matando todo mundo, não precisam ser tomadas ao pé da letra como uma fonte de revelação proposicional da vontade de Deus, mas “podem ser vistas somadas umas às outras para resultar numa narração cumulativa da natureza e caráter de Deus” (McGrath, 2007, pág. 146), demonstrando assim o modo como Deus se relacionou com os seres humanos nas mais diversas épocas respeitando, até certo ponto, o nível e a capacidade de entendimento das pessoas nos momentos específicos e estágios de sua revelação. Ou seja, sempre levando em conta o caráter de “adaptação”. Como McGrath conclui, “em vez de forçar a Escritura a um molde ditado pelas preocupações do iluminismo, o evangelicalismo pode dedicar-se a permitir que a Escritura seja Escritura” (2007, pág. 146). Na prática todo mundo faz isso, pois nenhuma igreja sai por aí invadindo bairros e exterminando todos os que não são fiéis.

Um caminho que parece estar em estrita conformidade com a posição de Calvino e que faz amplo sentido para o mundo pós-moderno é apresentar a Escritura com base naquilo que ela é. Ela é uma obra do Espírito Santo. Somente o Espírito Santo pode comprová-la no coração do homem. Calvino não estava dizendo que a revelação bíblica é irracional ou errada, apenas lembrando que a realidade fundamental de Deus transcende a racionalidade humana, por isso, para se comunicar, Deus teve de se posicionar no nível daqueles que o ouviam. Assim, convém lembrar que “ao entender e expressar a fé cristã, temos de dar espaço para o conceito de ‘mistério’” (Grenz, 1997, pág. 245). Ou seja, não é possível correlacionar tudo aquilo que a Bíblia fala sobre Deus com aquilo que a ciência descobre. Então, a apologética deveria desprender-se da insistência de comprovar a Bíblia com a estrita metodologia iluminista e também deixá-la “falar ao coração” do homem pós-moderno.

É um erro insistir no apelo puramente racional por dois motivos: primeiro, porque não há, no mundo pós-moderno, um conjunto de pressupostos universais aceitos por todos (nem mesmo no “moderno” havia). E segundo, porque o apelo da Bíblia definitivamente não é um apelo puramente racional. A Bíblia se apresenta como a Verdade, não no sentido de que é um conjunto de proposições que podem ser comprovadas ao estilo iluminista, mas porque é aquilo em que se pode confiar. McGrath lembra que a raiz da palavra verdade, principalmente na língua hebraica, não se refere à noção iluminista da correspondência conceitual ou proposicional, mas como algo confiável (2007, ver pag. 149). A confiabilidade da Bíblia não se comprova por meio de lógicas cartesianas ou deduções empiricistas. Ela se comprova principalmente por sua solidez e significância histórica, pois, ao longo de milênios, tem feito sentido para um número incontável de pessoas que têm descoberto nela a verdade que satisfaz a mente e o coração.

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

por Leandro Antonio de Lima

Não pode haver dúvidas de que Calvino sustentava um conceito de inspiração que somente poderia ser descrito como “verbal” e “plenário”, estendendo-se tanto à linguagem quanto ao estilo (Polmann, 1974, pág. 102). Entretanto, para Calvino, Deus se revelou adaptando-se à capacidade humana, isso quer dizer que ele usou descrições e palavras que tornavam compreensíveis para o ser humano a mensagem. São muitos os textos de Calvino que descrevem esse processo. No comentário de Deuteronômio, ele assinalou:

Os crentes têm que sempre recordar que Deus não falou de acordo com sua natureza. Se tivesse falado com sua própria linguagem, que mortal poderia ter compreendido? Não! Como ele tem nos falado na Escritura Sagrada? Tem se adaptado a nossa reduzida natureza como uma babá balbucia palavras a uma criança adaptando-se a seu nível de entendimento. Assim, Deus tem se adaptado a nós, uma vez que nunca estaríamos em condições de compreender o que ele diz, se não tivesse se aproximado de nós. Consequentemente, ele faz o papel de uma babá na Escritura (Citado por Polmann, 1974, pág. 110).1

Calvino não tinha dificuldades em entender que certos termos utilizados na Bíblia foram acomodados para a compreensão de um povo que era, segundo suas palavras, rude, ignorante e imperfeito (Ver comentários de Calvino em Dt 22.23; Êx 24.9; Êx 33.21; Dt 30.1). Para Calvino, quando Deus fala, “ele se acomoda à nossa capacidade” (1996, pág. 82, 1Co 2.7).

Em outro lugar, Calvino volta a descrever a tarefa divina de se revelar como a de uma babá que balbucia a um infante, não obstante, ele entende que isso não desqualifica a Escritura, antes faz com que nos apeguemos ainda mais a ela, pois somente ela pode nos mostrar quem é Deus:

Onde quer que falemos dos mistérios de Deus, temos que tomar a Escritura como Guia, adotar a linguagem que ela ensina e não nos exceder nesses limites, já que Deus sabe que nossa mente não pode ascender tão alto como para compreender a ele se tivesse que empregar palavras dignas de sua majestade, e, por isso, ele se adapta a nossa pequenez. E como uma babá balbucia ao infante, assim ele emprega uma linguagem especial para nós, de forma que possamos compreendê-lo (Citado por Polmann, 1974, pág. 111).2

A importância desse conceito está justamente no não insistir no literalismo excessivo da Escritura. Certos aspectos da Bíblia não precisam ser literais para que sejam inspirados ou normativos ou para que tenham o caráter de verdadeiro, como é o caso dos seis dias da criação. Isso, evidentemente, não envolve uma aceitação simples das teorias científicas, nem mesmo uma adaptação às teorias científicas, mas apenas um entendimento mais profundo do caráter da Escritura como revelação de Deus. Faz tempo que os reformados aceitam que a Escritura usa a linguagem do homem comum para descrever os fenômenos. Se a Escritura diz que o sol gira ao redor da terra e que o vento tem seus depósitos em algum lugar, ela o está fazendo nos termos que os homens daquela época podiam compreender. Ela não está usando linguagem científica justamente porque o povo daquela época não tinha acesso à linguagem científica. Assim também ela diz que Deus tem ouvidos e até estômago, além de sentimentos humanos como arrependimento e ciúmes, porque precisa descrever Deus com categorias humanas, afinal, essas são as únicas que o homem consegue entender. Para muitas pessoas, ou todo o texto da criação do livro do Gênesis tem que ser literal, ou não pode mais ser aceito como inspirado. Embora essa opinião deva ser respeitada, talvez não seja necessário tal radicalismo para continuar crendo na inspiração plenária das Escrituras.

É importante que se entenda que o que se está propondo não é um abandono puro e simples das definições normalmente aceitas sobre o caráter da Bíblia, mas apenas um diálogo e uma avaliação de outras possibilidades, como um desenvolvimento da própria concepção de Calvino sobre a Escritura.

Se o conceito de inspiração em Calvino envolve, em algum ponto, uma acomodação, então, definitivamente, ele não poderia ser submetido a um teste de caráter científico. O ponto chave é que Calvino defendia a questão do testemunho interno do Espírito Santo como “prova” definitiva para o cristão da veracidade da Bíblia e não a submissão aos testes empíricos.

Assim, com surpresa, é possível perceber que o conceito de Calvino a respeito da Bíblia tem muito mais potencial para a pós-modernidade do que o literalismo bíblico do fundamentalismo influenciado pelo modernismo. Tinha também mais potencial para a própria modernidade, mas, como McGrath observou, talvez ele não tenha sido levado tão a sério.

1. A citação se refere ao Corpus Reformatorum (XXVI, 387).

2. A citação se refere ao Corpus Reformatorum (VII, 169).

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

por Leandro Antonio de Lima

O grande desafio para o calvinismo, bem como para todo o cristianismo, parece ser o de recuperar os fundamentos. Por meio de seu embate com a modernidade, do qual o calvinismo saiu em frangalhos algumas vezes, o calvinismo usou argumentos para responder à crítica sobre a existência de Deus ou dos milagres e, acima de tudo, para defender a Bíblia, mas agora essa pode não ser a preocupação central. Na pós-modernidade desconstrucionista, diz-se que defender a existência de uma verdade objetiva soa a fascismo e apregoar uma moral universal é tido como um instrumento de dominação. Embora já tenha sido observado que ninguém consegue viver plenamente com essa asseveração, pois a própria pós-modernidade se torna dogmática na defesa de suas teses e é ideológica sobre suas posições antimoralistas, é um fato que a mentalidade atual se recusa a aceitar, pelo menos em tese, postulados dogmáticos.

A questão da objetividade da verdade sempre foi crucial para o calvinismo. O apego à Escritura foi o instrumento principal da Reforma para resistir a Roma. A Reforma apregoou o “Sola Scriptura”, dizendo que somente a Escritura (não o Papa, nem a igreja ou a tradição) podia dizer aquilo que devia ser aceito como verdade absoluta. Durante as Idades Média e Moderna, as pessoas acreditavam na existência de referências que podiam definir o que é verdade do que é falso. Contudo, como defender a verdade bíblica na pós-modernidade?

No caso deste estudo, primeiramente não repetindo um erro comum cometido na modernidade, que se refere à tendência de interpretar a Bíblia com os óculos de uma só época. Isso se deu tanto no liberalismo quanto no fundamentalismo. O primeiro usou os óculos da modernidade para dizer que a Bíblia não era um livro sobrenatural, já o segundo usou os óculos da modernidade para dizer que a Bíblia era um livro confiável.

Interessa, agora, tratar mais longamente sobre este segundo caso. É notável o excesso de literalismo que dominou a interpretação bíblica conservadora que, de certa maneira, foi fruto do iluminismo. Para ilustrar isso utilizando um único ponto de discussão entre religião e modernidade, observe-se a espinhosa questão da descrição bíblica da criação do mundo. Talvez esse tenha sido o maior ponto de discussão no debate entre ciência e religião (ainda bastante sensível) por meio do sedimentado debate “evolucionismo-criacionismo”, que se desenvolveu em linhas gerais do seguinte modo: a ciência procurando negar a existência de Deus ao desmentir que o mundo foi criado como a Bíblia descreve, e os religiosos tentando provar que a ciência estava errada e que a Bíblia estava certa.

McGrath faz uma inquietante avaliação desse debate:

Desde o século 19, a religião e a ciência frequentemente parecem estar presas a um combate mortal, na cultura ocidental. Alguns escritores sugeriram que isso retrata uma influência excessiva de Calvino sobre o cristianismo ocidental. Contudo, de forma paradoxal, isto se dá precisamente em razão de Calvino ter tido uma influência muito pequena sobre seus seguidores posteriores (2004, pág. 289).

O que McGrath está dizendo é que Calvino não tinha uma interpretação literal a respeito da criação do mundo igual à que foi sustentada pelos seus seguidores. McGrath diz: “Para Calvino, mesmo a ideia dos ‘seis dias da criação’ foi uma adaptação divina às capacidades cognitivas humanas; ela não deve ser tomada como verdade ao pé da letra” (2004, pág. 289).1 Por isso, McGrath conclui:

Se Calvino tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores contemporâneos, talvez um dos aspectos centrais da moderna cultura ocidental – o conceito de uma tensão entre religião e ciência – tivesse sido evitado. Todo o debate sobre a evolução teria tomado um curso radicalmente diferente, se ele tivesse tido uma influência maior sobre seus seguidores posteriores (2004, págs. 289-290).

Não é possível ter muita convicção a respeito disso, pois a indisposição em relação ao outro lado foi mútua, e não apenas uma rejeição da religião à ciência. De qualquer modo, esse é um ponto que precisa ser analisado mais cuidadosamente. As observações de McGrath são baseadas no comentário de Calvino a respeito do texto de Gênesis 1, que narra a criação do mundo em seis dias. Talvez McGrath esteja indo longe demais ao quase dizer que Calvino poderia concordar com as teorias científicas, mas é um fato que, falando sobre o uso antigo das expressões “tarde-manhã” para descrever a duração do dia, Calvino diz que Moisés “acomodou seu discurso para um sistema estabelecido” (Calvino, Gn 1.5). Ou seja, Moisés utilizou o sistema de sua época que contava o dia desse modo para fins de comunicação. Falando contra a opinião daqueles que negavam que o mundo tivesse sido criado em etapas, Calvino diz que “Deus mesmo tomou o espaço de seis dias, para o propósito de acomodar suas obras para a capacidade dos homens” (Calvino, Gn 1.5). E ao fazer isso, segundo Calvino, ele se revelou ainda mais como um Deus glorioso e gracioso.

Isso está conectado ao conceito de inspiração advogado por Calvino. Segundo McGrath, Calvino desenvolveu, no século 16, uma teoria incrivelmente sofisticada sobre a natureza e a função da linguagem humana (2004, ver pag. 154). Nas Escrituras, segundo Calvino, Deus se revela por meio de palavras. Essas palavras humanas conseguem falar algo sobre Deus, mas são limitadas. Aqui está uma das grandes contribuições de Calvino para o pensamento cristão: o princípio da acomodação. Ou seja, a palavra divina adapta-se ou acomoda-se à capacidade humana, para suprir as necessidades da situação. Em outras palavras, Deus se retrata de uma forma que o homem tinha condições de compreender. Parece realmente lógico, pois se Deus se revelasse exatamente como é, quem poderia compreendê-lo? McGrath conclui: “Assim, Calvino observa que muitos dos aspectos da história da criação e da queda (Gênesis 1–3), tais como o conceito de ‘seis dias’ ou das ‘águas sobre o firmamento’, são adaptados à mentalidade e às perspectivas de um povo relativamente simples” (2004, págs. 155-156). Essa é realmente uma informação importante que abre nova perspectiva para entender aquele velho conceito reformado da revelação como “progressiva e adaptável”.2

1. Apesar de Warfield defender que Calvino entendia os seis dias da criação como seis dias literais (1931, ver pag. 292).
2. Vos conceituou a revelação como sendo “histórica, progressiva, orgânica e adaptável”. Histórica, porque se deu num dado momento histórico em que aconteceu o evento redentivo. Progressiva, porque nem tudo foi revelado de uma só vez. Orgânica, porque o conhecimento da redenção foi suficiente em cada estágio de desenvolvimento. E adaptável, porque “tudo o que Deus autorrevelou veio como resposta às necessidades religiosas práticas de seu povo na medida em que estas iam surgindo no decorrer da história” (Vos, 1948, pág. 17).

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

por Leandro Antonio de Lima

Costuma-se dizer: “Repetir sem entender é coisa de papagaio”. Os donos de papagaios domesticam os pássaros para que repitam palavras decoradas. As vezes se pensa que os papagaios estão sendo inteligentes por repetirem aquilo que foram condicionados. Mas a verdade é que as pobres aves literalmente “não sabem o que estão falando”. Pensamos que muitas vezes uma cena semelhante pode ocorrer na igreja. Os líderes eclesiásticos fazem as pessoas engolirem um tipo de cristianismo sem lhes dar explicações convincentes sobre o que estão ensinando, e sem demonstrar que seus ensinos têm base na Palavra de Deus. Essa teologia é imposta por causa do carisma do líder ou por causa do grupo que ele representa (tradição). E estes “pobres cristãos” saem por aí repetindo ensinos que foram condicionados a repetir. Talvez nunca pensam sobre eles.

Um cristão deveria ser alguém com discernimento. Não poderia engolir tudo que ouvisse por aí sem considerar atentamente o que está ouvindo. O caos da irracionalidade moderna não deveria atingir a fé. Mas infelizmente, hoje em dia, as grandes doutrinas da Palavra de Deus estão quase esquecidas. Em geral, as pessoas sabem muito pouco sobre os atributos de Deus, as naturezas de Cristo, ou sobre o verdadeiro significado do batismo com o Espírito Santo. E quando sabem, parecem não ter muito interesse a respeito. Se as questões escatológicas causam discussão, por outro lado são apenas superficiais, em assuntos selecionados, e muito mais voltadas para especulações sobre o milênio ou o arrebatamento do que para conteúdo substancial. Uma das razões dessa falta de conteúdo tem a ver com as obras teológicas publicadas. Boas obras de teologia, muitas vezes, estão em linguagem inacessível para os não iniciados. Enquanto isso as prateleiras das livrarias cristãs estão cheias de livros de auto-ajuda, que prometem soluções milagrosas em apenas “alguns passos”, mas que não trazem verdadeiro crescimento na graça e no conhecimento de Deus (2Pe 3.18).

O fato é que ser cristão hoje está se tornando apenas questão de sentimentalismo. E as vezes, até de gosto pessoal. No senso comum dos nossos dias, o cristão verdadeiro não é aquele que “sabe” mais, e sim aquele que “sente” mais (teve “experiências”). A ênfase no sentimentalismo é uma das marcas do relativismo do mundo pós-moderno. Até porque, sentimentos são coisas extremamente subjetivas e relativas.

A fé deve ser bem fundamentada e amplamente convincente não somente no aspecto emocional, mas também no racional. Como diz Michael Horton, todo cristão deveria ser indisposto a aceitar com o coração uma fé que falha em convencer sua mente. Mas a verdade é que, muitas vezes, a igreja se torna o local onde as mentes são menos exigidas.

Infelizmente, muitos cristãos são acostumados a não pensar a respeito de sua fé. São como papagaios, ensinados a repetir coisas que não entendem, apenas para causar admiração nos outros. Nestes tempos quando a autojustificação ou a auto-ajuda têm dominado a pregação, as publicações e os programas televisionados, precisamos urgentemente de um retorno para a mensagem da graça, para a mensagem do comprometimento bíblico-teológico. Nosso sentido e propósito, como indivíduos e como igreja, dependem largamente de quão claramente compreendermos as verdades sobre quem Deus é, quem nós somos, e o que o plano de Deus para a história envolve. E esse é o papel da teologia.

Mesmo sabendo da complexidade de muitos dos assuntos que serão considerados aqui, objetivamos dialogar sobre questões que fazem parte do dia-a-dia dos crentes (aqueles que têm fé) e mesmo dos não-crentes. Não queremos tratar de assuntos teológicos como se nada tivessem a ver com a vida prática das pessoas. O que se pretende é uma análise sincera, de uma perspectiva bíblica, sobre assuntos selecionados que são vitais para um verdadeiro conhecimento de Deus, e uma vida cristã frutífera.

O estudante de teologia nunca pode se esquecer de um princípio fundamental: Sua teologia precisa servir para alguma coisa. Podemos perceber um excesso de abstrações teológicas em muitas obras, profundo conhecimento histórico e pesquisa séria, porém, pouca aplicação. Enquanto os “intelectuais” cristãos se deliciam com manjares, é possível que o povo simples esteja sem o alimento de que tanto precisa. Precisamos mais do que nunca traduzir a teologia para a linguagem do povo, uma teologia com aplicação prática. O objetivo desses estudos é conhecer melhor o Deus das Escrituras para desenvolver um relacionamento melhor com ele, ou seja, teologia para a vida.

Entendimentos errôneos acerca de Deus têm minado a verdadeira religião nos quatro cantos do mundo, introduzindo erros e heresias destruidoras na vida individual do povo de Deus e também em denominações inteiras. Conhecer doutrina não é coisa sem importância, é assunto fundamental para os dias em que vivemos. Um “calvinismo novo” não traz necessarimente novas doutrinas, mas se preocupa em tornar as antigas doutrinas da Palavra de Deus acessíveis para as pessoas de hoje.

Nos próximos posts falaremos a respeito de como o Novo Calvinismo precisa lidar com os desafios da época atual.

Fonte: http://novocalvinismo.blogspot.com/

Existe criação surgida do nada? A cineasta Nina Paley acredita que não. E fotografou e animou artefatos arqueológicos do Metropolitan Museum of Art para provar que a criatividade é sempre sustentada em um trabalho anterior, e que todos os trabalhos são derivativos.

E fez o seu próprio:

Legal é visitar o link: http://www.questioncopyright.com